“Brasileiro sabe fazer jogo de qualidade”. Se havia qualquer dúvida sobre isso, o SBGames 2017 chegou para colocar uma pedra sobre o assunto. Eu acompanho o evento desde 2007, inclusive ajudei na organização do festival de jogos em algumas edições, e não lembro de uma coleção de jogos tão boa quanto agora. Inclusive VR! (novidade).

Belo campus da PUCPR (Curitiba)

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Muitos anos atrás as produções enviadas eram fraquíssimas, geralmente pequenos trabalhos de estudantes desenvolvidos durante poucos meses, sendo que a maioria dos projetos eram abandonados depois. Com o passar do tempo, os estúdios foram se organizando com gente dedicada na sua função (acabou gráfico de programador!) e os projetos ganharam muito mais tempo de produção (em alguns casos anos).

Agora dá gosto apreciar os jogos e notar qualidade na arte, no áudio, no game e level design. Ok, não temos produções AAA, a maioria é jogo 2D ou 3D mais cartoon, mas não vejo nenhum problema nisso.

 

Percebi que o ciclo fechou, a indústria de jogos brasileira está amadurecida. Antigamente tudo que queríamos era descobrir como fazer jogos. Surgiram cursos de graduação, cursos online, traduções de livros clássicos de game design e arte, os alunos foram se formando, muitos estúdios surgiram, e por tabela bons jogos foram aparecendo. Depois o pessoal começou a descobrir como vender suas produções, modelos de negócio, networking, jogos brasileiros surgiram no steam, celulares, consoles. De jogos indies por hobby, virou profissão séria, sendo a principal fonte de renda dos envolvidos, essencial para que estúdios cresçam, contratarem mais gente, formando uma indústria de verdade. E neste último SBGames presenciei algumas iniciativas de resgatar a história dos nossos jogos, com documentários e até um possível site de abandonware catalogando os jogos nacionais antigos. Geralmente uma indústria que começa a se preocupar em olhar para seu passado, é uma indústria que amadureceu.

Outra coisa incrível que notei é esta virada do ciclo do ensino. Eu já trabalhei fazendo jogos, virei professor, e alunos que tiveram aula comigo estão trabalhando em estúdios nacionais ou internacionais (de grande ou pequeno porte), além claro de indies que estão ai mostrando seu estilo com jogos bem únicos. E o mais legal disso é que alguns destes alunos já são professores em outros cursos, tem gente já com blog, canal no youtube para ensinar game design, enfim, toda uma nova geração de educadores fazendo crescer a indústria. Tenho muito orgulho de poder contribuir com meu 1%.

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Fechou o ciclo do conhecimento: as pessoas sabem como fazer jogos bons, já não é um mistério, tem capacidade técnica e artística para isso e conseguem viver da sua arte, podendo contribuir com a absorção de novos profissionais no mercado.

Por exemplo, eu descobri por acaso um vídeo de um shooter de nave com visual preto e branco, imitando a estética de filme de ficção dos anos 50 com disco voares explodindo com faíscas exageradas, como se fossem maquetes pendurada por fios. Não sabia muitas informações deste jogo, só sabia que era brasileiro. Mostrava em aula como exemplo de visão no design artístico, uma escolha estética muito bem feita que fugia do padrão. Pois bem, ao chegar lá no SBGames este jogo estava concorrendo como melhor arte (e ganhou!) e conheci seu desenvolvedor… Quem era? … Meu aluno de uma década atrás, formado nos primeiras turmas! Uma grande surpresa! Então já estou usando em aula exemplos de alunos graduados, o ciclo se fechou!

Esquadrão 51 de Márcio Rosa

Outros jogos muito interessantes com ex-alunos envolvidos no desenvolvimento: Kaze and The Wild Masks (https://www.playkaze.com), Funda Simulator (VR), Exodemon (https://kuupu.itch.io/exodemon), Card War (card game físico).

Obs: algumas fotos que tirei destes jogos borraram, só se salvaram Kaze e o Funda Simulator…

kaze

VR

Claro que viver de jogo no Brasil não é fácil, cada um tem que lutar por seu lugar ao sol, ainda precisamos crescer muito, mas está acontecendo o processo.

Enfim, estes 10 anos em que acompanho o SBGames me fizeram lembrar da enorme evolução que tivemos, e notar tantas empresas que estão sempre voltando nos últimos anos, muitos com jogos premiados; é sinal que o mercado está vivo, forte e crescendo. De grupos isolados que se dissolviam a cada ano, conseguimos evoluir para estúdios constituídos, conquistando sucesso internacional. Nossa indústria está saindo da infância e entrando na adolescência…

Avante!

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Ah e o evento?

Estava muito bom, foi um dos SBGames mais tranquilos e agradáveis que já fui. Ajudou muito o fato de que meu hotel era no lado do campus, e estava com um grupo de amigos, colegas, alunos, professores, facilitando as caronas, achar onde comer, etc. O meu perfil do usuário no evento também mudou. Nas primeiras vezes eu queria ver tudo, especialmente o conteúdo de game design. Porém muitas vezes eram artigos super acadêmicos e poucos práticos, mais chatos do que úteis, que me decepcionavam um bocado… Agora tudo que quero são os post mortens, não tem nada melhor do que ouvir as experiências reais dos desenvolvedores, dos verdadeiros responsáveis por nosso mercado estar crescendo. Na minha opinião atualmente o que mais vale no SBGames são post mortens, além de conhecer os jogos do festival, assistir os keynotes e algumas outras palestras mais pontuais. E não posso reclamar, houverem muitos post mortens desta vez, 13! Consegui ir na maioria, muitas histórias fantásticas de bugs hilários, correrias, super acertos causados por acidentes, desespero e sucesso. Não tenho como escrever aqui pois é muita coisa, mas fica minha recomendação de sempre participar dos post mortens. É fantástico também conhecer as pessoas, perguntar sobre o processo, testar os jogos, etc.

Enfim, o gostei muito do evento. Só para dizer que não reclamei de nada 🙂 , no primeiro dia a gente sempre fica um pouco perdido, e mesmo os prédios sendo um no lado do outro, poderia ter um pouco mais de cartazes, indicações mais visíveis. Mas logo a gente se acostuma.

Algumas pessoas não se deram conta que havia um mapa dobrado dentro do crachá, poderia ter um aviso mais global.

Ah, outra novidade bem vinda foi o uso de um aplicativo de eventos, permitindo receber constantemente avisos de atualizações do cronograma, dicas gerais, e até enviando fotos para um concurso de fotos, compartilhar contatos, etc. Isso parece estar virando padrão nos eventos recentes, ajuda bastante em informar todos. Mesmo que este app tinha uns bugs chatos de navegação, mas tudo bem.

Então é isso! Desejo que a nossa indústria continue crescendo, juntamente com o SBGames e tantos outros eventos sobre jogos que já temos no país hoje em dia. E que essa iniciativa de organizar a história dos jogos brasileiros dê certo, a gente não conhece a nossa produção local!

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Consegui experimentar rapidamente o último trabalho da JoyMaster – Blazing Chrome, que tem um visual fantástico semelhante ao Contra do SNES. Ansioso pelo lançamento!

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“Simulador” de tirar leite de vaca… 🙂

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Vi lá o Starlit Archery Club (http://starlitarchery.club) dos meus amigos da Rockhead Games, agora já lançado e gratuito. Um dos melhores jogos competitivo mobile que já joguei, viciante!

starlit

Post mortens, sempre excelentes!

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Premiação do festival de jogos, toda a lista dos finalistas pode ser conferida no site oficial (http://www.sbgames.org/sbgames2017/festival-de-jogos).

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Conhecemos lá em Curitiba um bar indicado pelo evento, chamado Cooldown, temático de jogos!

O cardápio simulava um inventário, cada item um produto diferente com uma criativa descrição gamer. Inclusive tinha poção de mana, energia…

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Pessoal da organiação: um batalhão de gente muito dedicada, gerenciar um evento deste tamanho dá um trabalho monumental!

Parabéns ao Bruno Campagnolo de Paula que foi chair principal desta vez.

organização

Extra: algumas figuras ilustres já passaram pelo hotel que fiquei (no lado do campus) 🙂 , como:

tiririca

Até o próximo!

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