corais

ABZÛ foi feito pelo mesmo diretor de arte de Journey, e também pelo mesmo compositor da trilha sonora. Fora isso não tem ligação com o estúdio original de Journey… mas o jogo é tão inspirado no primeiro que quase dá para chamar de “clone alterado”.

Journey criou uma fórmula para jogos poéticos, e ABZÛ segue isso diretamente. Vamos comparar?

 

  • Criar um cenário/mundo/tema único:

J: Deserto / A: Oceano

  • Ter um personagem genérico e simples, com rosto coberto para aumentar imersão (imaginar que eu poderia ser ele):

J: Andarilho com capa / A: Mergulhador com roupa de mergulho

  • Andar pelo cenário e interagir com “triggers” que abrem a próxima “porta”:

É a base do gameplay dos dois.

  • Ter trechos de movimento forçado com uma sensação de euforia:

J: Surfar na areia / A: Pegar correntes marinhas que te empurram

  • Ter um inimigo que te ataca, porém não mata:

Não vou dar detalhes, mas sim, os dois jogos são iguais. Eles também não têm upgrades ou outras mecânicas clássicas de progresso e premiação.

  • Uma comunicação que lembra um assobio:

J: No multiplayer / A: No single com uns drones que te seguem (pequenas ordens para abrirem portas)

  • Belíssima arte e música, tecnicamente perfeito:

Sim! Com certeza, como falei o diretor de arte e o responsável para trilha são os mesmos nos dois jogos!

  • História contada pelo ambiente, sem texto ou voz:

J: Desenhos nas paredes, túmulos no chão, … (também tem cutscenes) / A: Desenhos nas paredes e alguns outros eventos (sem cutscene tradicional)

  • História aberta a interpretação, com metáforas

Neste caso acho Journey muito mais profundo que ABZÛ, mas os dois seguem esta filosofia narrativa, depende da sua disposição em interpretar o que viu e sentiu.

ambiente

 

Então podemos concluir que ABZÛ é uma espécie de primo aquático de Journey.

Não digo que ele é um simples clone, existem muitas diferenças, principalmente na temática, mas tantas semelhanças que chegou a ficar engraçado. Quando eu penso, só falta acontecer isso, e pouco tempo depois é justamente o que acontece…

Os dois jogos são poéticos e é uma jornada curta, então depende do seu gosto para saber se vale a pena. Gostei de ambos, porém Journey pra mim é inesquecível e foi muito emocionante quando experimentei da primeira vez (já falei tanto sobre ele aqui no blog que não preciso me repetir); já ABZÛ foi um belo passeio, mas sem o mesmo impacto.

 

O maior problema que vejo é o pacing… A narrativa não parece bem ajustada no ritmo. Antes que eu entendesse o grande mistério do jogo, ele já estava contando os seus segredos, antes que eu me importasse com o herói, ele já estava vencendo o vilão…

Não deu tempo para sentir raiva do vilão, o herói sofreu pouco para eu torcer por ele…

E ai no fim a emoção foi diluída (sem trocadinhos…).

 

O pacing é fundamental nestas obras poéticas, o próprio criador do Journey falou o quando foi complicado ajustar os pequenos detalhes do jogo, como por exemplo o tempo que leva para o personagem andar lentamente na neve até morrer. Se fosse rápido não seria dramático, se fosse lento demais seria irritante, tudo precisa ser ajustado para criar a sensação desejada. O jogo precisou de 1 ano extra de polimento até atingir o nível de emoção perfeito.

Eu senti que faltou em ABZÛ um game designer com esta percepção de ritmo, faltou ajuste fino. A arte, a música, os detalhes técnicos impressionantes como este cardume de peixes, estão todos lá, porém a emoção não veio em algumas partes por pequenos detalhes.

peixes

ABZÛ_peixes2

Algumas fases no início não pareciam contribuir muito com a narrativa, e quando ela veio ficou acelerada. Só é possível criar um grande clímax no fim, se houver um grande contraste com o que veio antes. Journey pula de um momento lento, tenso, triste, para a apoteose máxima. É um contraste muito violento e que causa grande impacto emocional.

Já as curvas de ritmo de ABZÛ me parecerem muito planas, faltou este contraste.

 

Concluindo: é uma bela experiência, e recomendo para quem curte este tipo de jogo. Mas é como uma montanha russa sem grandes curvas, você passa por ela, acaba e ok, era isso. Não fica gravado na sua memória como se ela tivesse 3 loops imensos…

O criador de ABZÛ acabou virando mergulhador profissional para pesquisar o mundo aquático. O jogo mostra muitos tipos de peixes diferentes e tem aspectos técnicos bem complexos como desenhar na tela milhares de peixes com comportamento de grupo muito bem feito. Se o jogador passar no meio eles desviam de forma perfeita, sem problemas de colisão. Toda a produção é muito bem feita, não há o que reclamar. Só faltou alguns ajustes na narrativa e talvez level design.

A história contata é aberta a interpretações, só que não me pareceu muito interessante quanto poderia ser, nada que dê vontade de cair de cabeça e ficar discutindo profundamente… tubarao

Se você estiver curioso sobre o que significa este nome:

Apsu, ou abzu, (Acadiano: apsû, engur, engurru) do sumeriano ab ‘longe’ e zu ‘água’ era o nome das águas doces das fontes subterrâneas, com atribuições religiosas nas mitologias da Suméria e Acádia. Lagos, rios, poços, e outras fontes de água doce também significavam abzu.

 

É isso, recomendo mergulhar em ABZÛ, a beleza da jornada vale a pena, só não crie muitas expectativas.

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