AVISO DE SPOILER: Este artigo comenta sobre a estrutura narrativa e alguns detalhes genéricos da história de Until Dawn. Na verdade o título já é um spoiler, sorry…

 

Este jogo era para ser em primeira pessoa usando o controle MOVE, para o PS3. Porém com a chegada do novo console, ele foi refeito para PS4, mudando a história, a câmera (agora em terceira pessoa podendo controlar vários personagens) e os controles, evidentemente. Em vários anos de produção e com as modificações feitas, talvez a noção inicial de alterar drasticamente a história se perdeu… Enfim, vou falar sobre isso daqui a pouco.

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Until Dawn é mais um destes adventures modernos, seguindo a fórmula que tornou Heavy Rain famoso: gráficos AAA, controle de vários personagens, suas decisões mudam a história, e não existe “Game Over”, mesmo que alguém morrer o jogo segue até o fim, se adaptando com os acontecimentos. Não há puzzles, nem itens com inventário como nos adventures old shool point and click (isso me agrada bastante na verdade, perdi a paciência com esses puzzles que podem ser bem irritantes).

É como assistir um filme tomando decisões do que fazer em pontos chave da história e explorando o cenário. Mas para ter alguma interação nas partes de ação, há os famosos e não muito agradáveis quick time events, o tal “apertar botão na hora certa”. Until Dawn usa eles sem tantos exageros como em Heavy Rain, e tem algumas partes muito interessantes. Por exemplo, uma mecânica que simula tiro, basta mover um alvo para a direção de um marcador e apertar um botão, em poucos segundos. Funciona bem. E o meu preferido, em alguns momentos que um personagem está fugindo de algo que o persegue, quando ele está atrás de um pilar quase sem respirar e algo terrível está ali no lado te procurando / farejando, aparece um aviso na tela dizendo “Não se mexa!” e por alguns segundos você deve manter o controle do PS4 perfeitamente estático, se fizer uma pequena vibração / movimento, já era, o “inimigo” irá te ver e pode resultar até na morte do personagem. Uma ideia simples e bem feita, faz o jogador também quase parar de respirar e virar uma estátua.

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A premissa deste jogo é um grupo de adolescentes que estão isolados em uma casa na montanha e são caçados por um psicopata. Clássico terror adolescente. Não é algo muito interessante ao meu ver, que fez eu ignorar o jogo por um bom tempo.

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Só que na verdade não é nada disso! A história é uma homenagem ao próprio gênero terror, usando muitos clichês, mas de um jeito criativo.

Do que se costuma tratar um filme de terror, qual o principal elemento? Geralmente um assassino, monstro ou fantasma. Pois bem, Until Dawn tem tudo isso, mas quase todos são falsos… Quando você começa a achar, ok então esse jogo é sobre isso… PAW, vem uma reviravolta e agora o motivo é outra coisa… E ai você pensa, ah então é sobre isso e… PEW, outra reviravolta… É uma salada de elementos que vão aos poucos sendo desembrulhados. Algumas coisas são bem forçadas, não dá muito para engolir, mas no geral é bem feito e interessante como tudo é mostrado. Gostando ou não da real história por trás de tudo, não se pode negar que é impossível parar de jogar até o fim, a sua curiosidade irá lhe deixar grudado na tela.

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Em termos de produção é tudo fantástico, os gráficos, som, a direção das cenas, tudo feito com alta qualidade. Os personagens são modelados com bastante realismo, cópias quase exatas de atores reais, que tem uma atuação excelente. O único problema de ter gráficos realistas para pessoas é que quando elas fazem algo estranho, a sensação de repulsa é grande – o famoso efeito uncanny valley.

 

Em vários momentos do jogo percebi algumas coisas esquisitas na animação, como quando o rosto “desarma”, volta para uma expressão neutra de forma brusca poucos instantes antes do corte da cena. Em outras situações a iluminação era estranha, acendendo mais os dentes do que a boca… Enfim, não é fácil convencer que bonecos poligonais são gente o tempo todo, mas no geral funciona.

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Mas dá para mudar a história?

A grande graça destes adventures modernos é jogar várias vezes e tomar decisões diferentes para ver como a história se adapta e modifica. A primeira jogada foi incrível, adorei a tensão do jogo, a ambientação, alguns jump scares bem feitos (além de outros forçados) e as reviravoltas. Mas…

Ao jogar de novo, tentando mudar tudo, as diferenças eram pequenas. O que dá para fazer é salvar ou não cada um dos personagens, porém os principais sempre vão até o fim, já outros são bem descartáveis. É bem decepcionante querer exterminar um personagem, errando todos quick time events, e mesmo assim ele dar um jeito de sobreviver até a parte final. Já outros um pequeno erro é morte certa. JessicaEnding.png

Ou seja, dá para concluir que a história é uma só, não tem grandes modificações. As escolhas podem mudar as texturas dos personagens (mais ou menos roupa, machucado ou não) e outros pequenos detalhes, mas cenas realmente novas são pouquíssimas. O jogo reutiliza cenas de um jeito esperto para facilitar a produção, mas muito decepcionante para o jogador que já viu aquilo antes. Por exemplo: em um momento 3 personagens estão conversando sentados em um sofá. Uma variação da história acontece quando um deles está morto. O que o jogo faz? Mostra a mesma cena, mesma câmera, só que o personagem morto não está lá. A frase que ele iria dizer é tão descartável que o diálogo dos outros personagens é exatamente o mesmo, não faz diferença alguma para a história ele estar vivo ou morto. Este reaproveitamento de cenas acontece em vários outros momentos de formas variadas…

 

Depois de jogar várias vezes e platinar, posso dizer que o título é muito bom na primeira vez, mas a descoberta que muitas escolhas são falsas decepciona. Seria melhor haver menos escolhas, porém com impacto grande nos acontecimentos.

Por isso em termos narrativos Heavy Rain ainda é muito melhor.

 

Until Dawn pode ser alugado e finalizado em alguns dias, e depois é só ver como seriam as mortes de todos personagens no youtube… já que a história base não muda grande coisa. Mesmo assim recomendo, a produção é ótima, e conta com muitas surpresas.

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