Eu considero que sucesso é trabalhar com o que gosta e conseguir pagar suas contas com  isso. Não precisa ser rico ou famoso. Lembre-se que a maior parte do tempo das nossas vidas é usada no trabalho, então fazer algo que você goste é fundamental, senão estará só sobrevivendo e não vivendo de verdade…

Por isso desejo sucesso a todos que estão na luta para atingir este objetivo, especialmente aos meus alunos 🙂 .

Acredito que praticamente todos que leem este blog sabem que sou professor de um curso de graduação em desenvolvimento de jogos digitais (na Unisinos), e sempre que vira o semestre conheço um grupo novo de estudantes empolgados em começar a sua jornada, que me faz lembrar de quando eu era adolescente e estava nesta situação também. Daquela época até hoje se passaram muitos anos, consegui trabalhar com arte 3D para publicidade e desenvolvimento de jogos, e agora estou totalmente focado na área acadêmica, lecionando a mais de uma década.

Então gostaria de compartilhar algumas dicas para ajudar quem está começando. Tentarei ser bem direto em cada tópico, mas já adianto que vai ficar longo! Pegue uma pipoca.

As dicas não estão em nenhuma ordem lógica, todas são importantes ao meu ver…

 

Vamos lá!

Dicas para estudantes:

(nota: é para o pessoal de jogos digitais, mas algumas também servem para outras áreas que envolvem produção criativa)

 

  • Portfólio é rei

Você pode ter feito graduação em Harvard, mas o seu portfólio é que determina se vai ou não conseguir a vaga em um estúdio (ou ser aceito como freelancer para um trabalho). E mesmo assim ele pode só garantir a oportunidade de fazer um teste (modelagem, animação, programar algum desafio…, de acordo com a vaga que busca). Afinal o portfólio pode mostrar trabalhos feitos em equipe, a empresa precisa ter certeza que você consegue sozinho fazer o trabalho que ela precisa.  Mais detalhes na dica abaixo.

 

  • Você é tão bom quanto o seu pior trabalho…

O portfólio é só uma coleção de trabalhos, demonstrando sua melhor produção. Seja arte visual (desenho ou modelagem 3D), música, software, animação…, uma demonstração da sua capacidade de fazer um trabalho bem feito. Pode estar online na forma de um site pessoal ou blog, mas seja lá como fizer precisa ser claro e direto, rápido de acessar e fácil de achar suas informações de contato. Se tiver animação de abertura usando flash, já é ponto negativo. Coloque no topo da página seu nome, email, etc. Não obrigue o visitante a clicar em vários links para achar suas informações de contato.

SÓ COLOQUE TRABALHOS BONS! Não é para colocar tudo que fez na vida. Se tiver um trabalho ruim irá “diminuir seu score”. Não precisa ter muita coisa, vale mais 5 ilustrações de alto nível, do que 30 mais ou menos. Conforme cria trabalho melhor, elimine os piores. Se alguém quiser mais exemplos do seu trabalho, irá entrar em contato e pedir, então procure deixar seu portfólio limpo e direto, sem fru fru. A criatividade deve estar nos seus trabalhos, não na formatação do seu portfólio. Pode ser uma página preta com umas imagens dentro.

 

  • É game designer? Cadê os jogos?

Já vi gente se apresentar como game designer, até colocar isso no cartão de visitas, mas não tem sequer um jogo autoral para mostrar. Só se apresente o que você realmente for, e alguém só é game designer se faz jogos. Pode ser jogo curto, protótipo, resultado de game jam, mas precisa ter algo para mostrar. Ou então se apresente como estudante de game design… Em estúdios o game designer geralmente conquistou o seu cargo começando como testador, como programador, artista… quem entra em uma empresa direto como game designer geralmente é alguém com experiência comprovada de mercado ou teve destaque neste ramo de alguma outra forma (premiação em festivais, etc).

 

  • Use o lado difuso do cérebro

Leia aqui. Também veja este vídeo que fala sobre o mesmo assunto e tem algumas boas dicas de como aprender / estudar com mais eficiência.

 

  • Ideias são baratas e não valem nada

Se você bater na porta da Valve e dizer que tem uma ideia genial de jogo, eles vão pedir um protótipo que demonstre ela funcionando. A Valve já contratou alunos que criaram jogos simples demonstrando uma ótima ideia (o primeiro Portal foi assim, o sistema de tintas do Portal 2 também). Ou seja, uma ideia solta, só no papel, NÃO VALE NADA! Você precisa prototipar ela, colocar para rodar e testar. No papel tudo é genial, mas na prática a coisa muda de figura. Ou seja, o jogo é A FORMA QUE VOCÊ IMPLEMENTA A IDEIA. Qualquer pessoa tem uma ideia em minutos. Transformá-la em algo que funcione é o trabalho do designer. Claro que uma ideia boa e inovadora tem seu valor na teoria, mas somente se ela conseguir virar algo jogável.

 

  • Se mostre, não se esconda

Alguns alunos se preocupam em proteger suas ideias/jogos com medo que sejam roubados. Bobagem! Fazer um jogo dá muito trabalho e ninguém vai querer se esforçar para produzir algo que não é seu. Divulgue seus jogos/protótipos! Se mostre! Se você manter escondido suas produções, ou porque acha que é genial demais ou porque acha que é ruim demais, nada irá acontecer. Mas se você mostrar pra todo mundo, fazer playtest, as possibilidades se abrem. Eu lembro que muito tempo atrás coloquei num fórum um protótipo meu e teve uma boa repercussão, consegui até um voluntário para fazer as músicas, e o projeto cresceu. Acabei ganhando um prêmio com ele depois. Ou seja, não tenha vergonha ou orgulho demais do que fez, mostre pra todo mundo, seja de forma virtual ou presencial, exiba seu trabalho e anote o retorno das pessoas que jogaram para ir melhorando.

 

  • Há algo muito importante em um curso além das aulas

A grande vantagem de estudar em um curso presencial, além do acesso direto a um professor, é que você está cercado de outras pessoas que provavelmente gostam das mesmas coisas que você e tem os mesmos objetivos! Isso não é incrível? Dezenas de colegas com o mesmo sonho de viver fazendo jogos. Então aproveite! Use o intervalo para conversar com as pessoas, criar projetos paralelos, fazer parcerias, criar estúdios! Sabe qual o motivo de haver intervalo na metade das aulas? Não é só para ir no banheiro ou comer algo, é para desenvolver o mercado! Fazer as pessoas conversarem, trocarem ideias, estimular a produção e o empreendedorismo. Então não fique no intervalo olhando para o teto ou jogando solitário no celular…

 

  • Pare de jogar! Desenvolvedor e jogador são criaturas diferentes

Ok, parar de jogar é exagero meu (foi só pra chamar a atenção). Mas procure não jogar durante todo o tempo livre que tiver. Se você gastar todo tempo jogando, não irá sobrar para o principal: FAZER jogos. Troque a mentalidade de jogador para desenvolvedor. O jogador tem prazer de jogar jogos prontos, é o usuário de um produto. O desenvolvedor tem prazer de FAZER jogos, é o inventor de um produto. Com o passar do tempo você vai ver que é muito mais satisfatório criar algo, principalmente quando chega no estágio de mostrar para outras pessoas e ver a reação emocional delas, do que só absorver um jogo pronto.

Provavelmente você joga desde criança não é mesmo? Vários anos dedicados a jogar muitos tipos de jogos. Hoje em dia os jogos são bem parecidos, dificilmente é criado um gênero novo. Então se você seguir jogando tudo que puder pela frente, ficará preso neste comportamento de continuar absorvendo as mesmas regras, os mesmos sistemas, ter quase a mesma experiência. E isso não irá agregar muito ao seu “eu” desenvolvedor. Você pode ficar bem informado do que está sendo feito no mercado jogando demos, vendo análises, mas não precisa dedicar centenas horas no último RPG da moda. Gaste este tempo em DESENVOLVIMENTO. Quando você sentir o poder de transformar suas ideias em emoções para outras pessoas, não vai querer saber de jogos prontos. Então terá se transformado em um verdadeiro desenvolvedor, usando todo ou quase todo do seu tempo livre nos seus projetos, criando e se divertindo com isso. Note que não estou dizendo que só deve desenvolver sem jogar, claro que se esta é arte que você escolheu dedicar a sua vida, vai querer usufruir dela de todas as formas possíveis; mas divida o tempo, deixe a maior parte para criar. E por falar nisso…

 

  • Você não irá fazer o novo God of War, e isso não é problema

Evite AAA. Muito provavelmente você nunca irá trabalhar em uma produção de grande porte. E isso pode ser uma vantagem! O que é melhor, animar a cauda do boss do último Halo, ou ter grande controle criativo em um jogo menor? Imagine trabalhar na mesma coisa por 3 ou 4 anos… só obedecendo ordens. Já teve aluno graduado que foi trabalhar fora do país e escolheu não participar de produções milionárias justamente por isso, ter mais influência no jogo, ser algo mais autoral.

Imagine um fã de cinema que entra em um curso de produção audiovisual com a expectativa de fazer o novo Star Wars. Ele só viu blockbusters na vida e só aceita fazer algo semelhante, todas suas referências são filmes que custaram centenas de milhões para serem feitos. Vai tomar um choque de realidade e ficar frustrado. Afinal na vida real, no início da carreira, tudo que ele pode fazer é um pequeno filme independente com poucos atores dentro de um apartamento, sem efeitos especiais. E mesmo assim pode criar algo muito bom, mas precisa aceitar a realidade menos glamorosa.

No curso de jogos é a mesma coisa, pense no aluno que só jogou AAA na vida, que em todos os projetos quer fazer coisas super complexas que somente um time de 100 pessoas conseguiria fazer. A chance de não conseguir realizar nada é enorme. Então o quanto antes puder, mude esta mentalidade, a nossa realidade são jogos independentes, casuais, advergames, etc. Aceite isso e sonhe em criar o novo Braid, o novo Limbo, o novo World of Goo, e não o novo MMO da Blizzard. Jogue indies, respire as produções mais pé no chão que são referências verdadeiras para a nossa realidade. Mais vale um jogo simples que existe do que uma mega produção que nunca será feita.

 

  • Não jogue a mesma coisa a vida inteira, alimente sua cabeça com tudo que for possível

Por falar em referências, procure não jogar sempre as mesmas coisas, ex: comprar todo ano COD. É tudo igual com algumas pequenas diferenças! Ou então jogar LOL, DOTA ou algum MMO por toda a eternidade. A não ser que você queira ser jogador profissional (não recomendo porque é MUITO competitivo e massacrante), estará sempre tendo a mesma experiência. Varie! Jogue de tudo um pouco, inclusive coisas que você não jogaria normalmente como um simulador de casamento, pescaria, etc. Tenha sempre a visão de desenvolvedor ativada, analisando cada elemento e descobrindo porque determinado jogo é  bom ou ruim. Aliás, jogue coisas ruins também! Pode ser uma boa lição do que NÃO fazer.

Faça este experimento: na própria liquidação do Steam compre vários jogos bizarros que você nunca ouviu falar, gastando no máximo R$20,00. Ou seja, aquelas produções muito baratas geralmente feitas por uma pessoa só ou uma equipe minúscula. Estes jogos tem inovações? Como conseguiram chamar a atenção? O que fizeram que funcionam ou não? É um bom exercício de design. Bem mais útil que gastar mais de R$150,00 no último lançamento AAA.

E além disso, você pode ter ótimas inspirações para criar jogos em outras mídias ou atividades. Procure dedicar algum tempo para literatura, cinema, teatro, museu, culinária, jogos de tabuleiro, passeio no parque… Abra sua cabeça para novos pensamentos fora do universo digital, tudo contribui para a inovação. Diz a lenda que o Miyamoto criou Pikmin por causa do seu hobby de jardinagem.

 

…CONTINUA… => PARTE 2 AQUI
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