A tela está completamente branca. Surge um círculo preto. Logo em seguida um quadrado mais ao lado. Um ícone dá a entender que devo clicar e arrastar entre eles. Ao fazer isso surge uma linha colorida ligando estes desenhos e no meio dela um retângulo que fica andando de um lado ao outro. Então aparece um pequeno círculo sobre o quadrado, que “entra” no retângulo e viaja até o outro lado, desaparecendo.

 

Este é o início de Mini Metro, o jogo não abre o menu principal, não abre tutorial com texto, ele já começa assim: uma tela branca e tudo vai acontecendo naturalmente, com desenhos simples de formas geométricas com poucas cores. E fica evidente que as linhas coloridas são linhas de metrô, as formas são estações, assim como os desenhos menores são passageiros que querem descer na estação que tem o mesmo símbolo que eles. É um jogo bem minimalista, muito elegante no seu design. Tem só os elementos fundamentais necessários para criar a experiência e nada mais.

Aos poucos vão surgindo mais passageiros, aparece um contador no canto esquerdo, e você percebe que o número de passageiros é a sua pontuação, é um jogo de sobrevivência. O quanto você consegue administrar as linhas do metrô antes que as pessoas fiquem esperando demais em uma estação e o jogo acabe?

Novas estações vão surgindo constantemente, e o jogador deve arrastar a linha do metrô para encaixar na nova estação. A linha pode ser livremente movida ou esticada. Porém não é muito eficiente uma linha só ligando todas as estações, o tempo que leva para ir de um lado até o outro é muito demorado. Então existe a opção de criar novas linhas, basta clicar e arrastar fora de uma linha já existente, e ai você pode fazer conexões, a eficiência do transporte melhora muito. Porém linhas novas são bem limitadas, existem poucas para usar.

Outro contador de tempo que surge no canto da tela mostra o dia da semana, que vão passando rapidamente (o jogador pode acelerar se quiser), e quando fecha uma semana você ganha um prêmio que pode ser escolhido: uma linha nova para usar, um trem novo para colocar em alguma linha, uma expansão para o trem carregar o dobro de pessoas, mais possibilidade da linha atravessar o rio do mapa (túnel), etc.

As suas decisões e a forma como expande as linhas são fundamentais, e aos poucos o jogo fica bem frenético. Em mapas pequenos a câmera pode suavemente distanciar para dar mais espaço, mas a maioria é uma tela fixa.

 

E é isso, a quantidade de passageiros vai crescendo tanto ao ponto de ficar desesperador ver uma fila de pessoas esperando, e você movendo linhas, realocando trens, tentando conter o caos. Ao fazer uma pontuação boa vai destrancando outros mapas, cada um inspirado em uma famosa cidade no mundo. Não tem muitos mapas, é um jogo curto mas barato, uma experiência bem interessante e diferente, eu gostei bastante.

 

Aqui a evolução de uma jogada minha (o próprio jogo permite gerar gifs):

Mini-Metro Paris (3214)

Ainda há outros modos como infinito e o difícil, onde não tem como realocar as linhas, depois de aplicado elas não podem ser movidas, só expandidas (o que torna tudo muito complicado). E também desafio diário. Eu gostei do modo principal, mas estes modos extras podem dar muito mais tempo de jogo para quem investir neles.

 

Além do gameplay o que me chamou a atenção foi a experiência elegante que o jogo cria, até mesmo na interface de menus. A câmera navega suavemente de um ponto ao outro, quase como uma apresentação de slides Prezi. Quando clica “jogar” ela desliza para o lado onde tem a escolha de mapas, depois movimenta até a área do jogo sem si, se pausar ou sair para o menu principal, lá vai ela de novo… é tudo suave e sem cortes, como se todas as telas e elementos do jogo estivessem em um painel imenso e a câmera só vai deslizando de um lado ao outro. Além do uso de poucas cores e texto só onde é essencial. Todo o jogo utiliza um botão do mouse e nada mais (com opção de acelerar o tempo na seta direcional do teclado).

 

É um bom exemplo de como fazer muito com pouco, onde a soma dos elementos gera um resultado surpreendente bom. Por isso é uma inspiração para game designers e designers de interface, arte em geral.

É um jogo que encontrou seu núcleo, um simulador abstrato te linhas de trem. Ele é só isso e pronto, sem nenhum extra desnecessário. Simples, elegante, eficiente, tudo que um jogo indie deve ser.

Fez sucesso em festivais no mundo, sendo finalista em 4 categorias no IGF 2016 (excelência em design, áudio, arte e Seumas McNally Grand Prize – que premia jogos fora dos padrões), dentre outros prêmios já conquistados em outras mostras. Como o IGF deste ano não aconteceu ainda, pode ser que ganhe.

Dá para ver que o público quer muito jogar algo diferente, e aprecia o clássico conceito de “menos é mais”. Porém nunca subestime esta filosofia, não há nada mais complexo do que criar algo simples…