Sabe aquela caixa pesada que você carrega sobre seu pescoço toda a vida? É a sua cabeça, sua cachola; o lugar onde mora seu cérebro: o órgão que mais usa recursos do corpo, que na verdade determina como é seu comportamento, ou seja, é você. A configuração única de bilhões de neurônios determina sua personalidade, o que você pensa, sua cultura, sua forma de agir. Às vezes ele age por si só e faz você fazer coisas por impulso, o quanto ele te controla, o quanto você controla ele? Aliás, ele e você são a mesma coisa, então faz sentido pensar desta forma? Na verdade é tudo muito confuso, a ciência já descobriu muitas coisas sobre o cérebro, mas ainda há muito mistério. De qualquer maneira, ter conhecimento sobre seu funcionamento pode ser muito positivo, afinal se ele é você, conhecer mais sobre ele é conhecer mais sobre você mesmo… é ter noção que alguns impulsos primitivos devem ser controlados, é como ter um pouco mais de controle sobre si… Não ser tão escravo dele…

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Desde que li A Theory of Fun for Game Design, que fala sobre neurociência aplicada ao design de jogos, tive muito interesse sobre o assunto. Não só para criação de jogos, mas para aplicar na vida real, afinal neurociência ajuda a explicar muitas coisas sobre como funcionamos, e com este conhecimento ter uma melhor qualidade de vida, aprender mais sobre este ser tão complexo e confuso, que determina o que você é…

 

Pois bem, descobri um curso no Coursera (aquela excelente plataforma de cursos grátis das melhores universidades do mundo) chamado “Aprendendo a aprender: ferramentas mentais poderosas para ajudá-lo a dominar assuntos difíceis” – Universidade da Califórnia. Já que falava sobre formas de aprender, deveria tratar bastante sobre neurociência, então resolvi conferir. Além disso o curso não tinha um prazo fechado para fazer, poderia seguir no seu ritmo, e é um dos poucos todo traduzido para o português (tinha uns problemas pequenos de tradução e diagramação, mas tudo bem). Eu costumo entrar em muitos cursos do Coursera, tem muita coisa interessante, mais pra dar uma olhada e ver se vale a pena seguir, devido ao tempo e dedicação que é exigido. E este me impressionou! Neurociência de alta qualidade e aplicada na prática, sem teorias complexas inúteis, sem enrolação. Só fiz um pedaço do curso e o pouco que vi já achei ótimo. Estou escrevendo aqui para falar dos modos que o cérebro funciona e como é importante ter conhecimento sobre isso. Todas as pessoas, especialmente as que lidam com criatividade (como no caso do desenvolvimento de jogos), podem tirar proveito deste conhecimento… Vamos lá:

 

 

Os dois modos do cérebro

De forma resumida, o nosso cérebro opera em dois modos: focado e difuso. A gente está constantemente alternando entre eles de forma automática, mas tendo o conhecimento do que é e como funciona cada um, podemos tomar medidas para pular de um ao outro com maior consciência e isso nos dar muitos benefícios.

 

 

  • Modo focado

Este é o mais fácil de entender. Imagine que você está tentando resolver um problema matemático, está lendo um livro e pensando na história, seus personagens, o irá acontecer, etc. Ou seja, em qualquer momento que você está focado em resolver um problema, ou entender algo mais profundamente, é o modo focado. Qualquer coisa que atraia a sua atenção de forma direta e que usa a mente para trabalhar focado na questão, é este modo. A melhor metáfora é pensar em uma mesa de pinball ou pachinko, onde a bola é arremessada no topo da máquina e cai batendo em pinos. Cada batida em um pino seria uma sinapse, uma atividade elétrica de um neurônio. Só que o objetivo não é que a bola caia na base da mesa, ela ficaria ali agindo, rebatendo nos pinos enquanto você processa alguma informação.

Uma antiga máquina de pachinko:

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No modo focado é como se essa imensa máquina estivesse bloqueada em uma área, ou seja, sua atividade neuronal, suas sinapses, ficam localizadas e concentradas em uma área do cérebro. Por estar concentrado é um trabalho bem eficiente, mas só funciona naquela parte. Por exemplo, se você está tentando resolver uma equação, a atividade cerebral está super ativa na área do cérebro responsável pelo processamento matemático, e não há grande atividade fora disso.

 

O modo focado é como se tivesse um limitador da atividade cerebral, focando em uma área:

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Ou seja, para resolver problemas usamos o modo focado. Mas se quisermos ter uma ideia nova? Podemos considerar que ideias novas realmente não existem, o que fazemos é misturar coisas diferentes para ter um resultado novo. Misturar referências, conceitos, padrões que a princípio não tem ligação entre si e desta forma criar algo novo. Para isso precisamos do modo difuso.

 

 

  • Modo difuso

Neste modo o cérebro não foca em atividades concentradas, na verdade ele está mais relaxado, funcionando no automático. É como se retirássemos a barreira na máquina de pachinko e agora a bola está livre para bater em qualquer pino de toda área disponível. Ou seja, temos atividade por todos os lados, o cérebro inteiro é usado, suas experiências antigas, novas, sua área emotiva, matemática, lógica e ilógica, está tudo em curto-circuito, desordenado, sem controle. Você não será capaz de resolver problemas diretos e explícitos como no modo focado, mas pode ter ideias loucas e aparentemente sem sentido, misturando tudo que está boiando na sua cabeça, de todos os lugares possíveis. E daí pode haver associações interessantes que você nunca imaginou ser possível, e estas intuições virarem algo mais concreto, uma ideia nova, um novo conceito, até a solução de um problema em aberto.

No modo difuso não há nenhuma barreira, a atividade é geral:

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Como entrar no modo difuso? Simples, faça NADA. É isso mesmo, deixe seu cérebro à deriva, deixe ele ir para onde quiser sem sua influência, deixe ele no automático, desligue o modo focado e ele vai pular para o difuso sozinho.

Por exemplo, você pode ir tomar um café ou suco, faça isso tranquilamente sem se preocupar com mais nada. Olhe para o horizonte pela janela por alguns minutos (ajuda também a relaxar o foco dos olhos, altamente recomendado para quem usa computador por muito tempo).

Ou faça uma atividade corporal que permita desligar sua cabeça. Por exemplo, dê uma caminhada ou corrida, ande de bicicleta ou na esteira da academia, dê uma volta de carro (só funciona se for um motorista experiente e estiver em um caminho conhecido – caso contrário estará preocupado com o funcionamento do carro ou por onde ir, e ai o modo focado liga de novo).

Lembre-se que tirar uma pausa do que está fazendo e ir para o Facebook não dá certo! Você estará lendo notícias, vendo fotos, conversando, e ai é modo focado. Ler um livro, ver TV, praticar um esporte competitivo (pensando na estratégia do jogo) é a mesma coisa. Não é parar de fazer o que estava fazendo e fazer outra coisa qualquer, tem que ser algo que permita sua mente voar, se libertar da necessidade de atenção focada.

 

E para os viciados em smartphones, que estão o dia todo em redes sociais em ou conversas múltiplas em aplicativos; quando o seu cérebro consegue dar uma descansada e ir para o modo difuso? Pense nisso…

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As vantagens de você ir de propósito para o modo difuso regularmente são várias: dar uma chance da sua mente associar coisas novas, resolver problemas que pareciam sem solução no modo difuso, ser criativo, ter uma mente mais equilibrada e relaxada. Isso ajuda a explicar aquelas coisas que você sempre ouviu da sua mãe:

“Vá dormir menino, deixa isso pra amanhã…”

“Tá o dia inteiro ai? Vai dar uma volta…”

“Dorme direito…”

Dentre outras “dicas” maternais. É o inconsciente coletivo nos mantando ir para o modo difuso.

 

E por falar em dormir, outra coisa que aprendi no curso é o quanto isso é necessário para o cérebro. Fisiologicamente o seu cérebro acumula toxinas enquanto está ativo, é o processo normal dele, é como se fosse ficando envenenado com a atividade de funcionar, e o sono serve para limpar tudo, dar um reboot, renovar, faxinar a casa. É absolutamente necessário para a qualidade de vida do seu cérebro dormir bem, é quando informações importantes são gravadas para a memória de longo prazo (um processo lento na verdade) e as informações não importantes são descartadas. Além da saúde física, é também um longo modo difuso! Você pode dormir com um problema em aberto na cabeça, e depois no outro dia ter a solução logo ao acordar. Um cérebro cansado é incapaz de ter ideias de qualidade no geral… além de outros problemas de saúde que a falta de sono suficiente pode causar.

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Por experiência própria, os maiores momentos “eureka” que tive, resolvendo algum problema que estava na minha mente, foram ao escovar os dentes, tomar banho, dirigindo para casa ou trabalho, andando na rua e “conversando comigo mesmo”, etc. Sempre que “larguei de mão” aquela coisa que estava me incomodando (especialmente aqueles bugs cretinos que atormentam quem está programando algo) e fui fazer outra coisa mais relaxante para a cabeça, a solução veio. Às vezes não inteira, mas foi o início de um raciocínio diferente que depois acabou virando a solução completa. É quando você para de pensar da mesma forma e encara o problema de outro ângulo.

Conversar com outras pessoas também ajuda neste caso, pois elas podem te questionar a pensar de forma diferente.

 

 

Use os modos em conjunto, na ordem certa

Também ao exercer alguma atividade criativa como escrever, é fundamental usar os modos na ordem certa. Primeiro o modo difuso, depois o focado. Se você está escrevendo um artigo, ou qualquer redação mais complexa que envolva colocar suas ideias no papel de forma organizada e lógica para o leitor, o melhor é fazer assim:

 

Use o modo difuso com uma “escrita bagunçada”, um rascunho, sem se preocupar com detalhes. Não interessa acentuação perfeita, se está elegante a escrita ou toda truncada, se tudo faz plenamente sentido, erros de português, se o fluxo está bom. O primeiro passo é só jogar suas ideias no papel (ou na tela), de qualquer jeito, rapidamente, tentando dar alguma ordem, mas sem se preocupar com nenhum tipo de refinamento. Principalmente se é um texto que mistura várias ideias, conceitos diferentes; ative este modo “rápido e bruto” e siga em frente!

 

Depois de fazer alguns parágrafos, quando sentir que secou a fonte das ideias e escreveu tudo que podia, volte ao início, ligue o modo focado e siga refinando. Talvez troque as ordens de alguns parágrafos, talvez reescreva um trecho confuso, talvez corte o que não ajudou muito no geral… Depois desta organização completa faça o polimento final. Ai sim se preocupe com erros menores, concordância perfeita e tudo mais.

 

Quem não usa este modo difuso no início e tenta escrever direto no focado, tem grande chance de se perder, desestimular, ficar muito tempo polindo uma frase enquanto deveria na verdade aproveitar que as ideias estão na cabeça e colocar elas no papel rápido, antes que sumam. Quando eu tenho inspiração para escrever um post, costumo iniciar o texto de qualquer jeito, jogando tudo no papel para usar esta inspiração, que nunca dura muito tempo. Quando acabar posso deixar o texto lá parado e voltar no futuro, talvez dias ou semanas depois (até meses!). E seguir o processo, refinando, até sentir que está pronto.

Costumo usar o modo focado direto só em textos curtos, como responder um email simples. No mais a bagunça inicial é fundamental!

 

Outra coisa que já li, é que na psicologia existe um termo que significa que processos já iniciados são tratados com mais prioridade pelo cérebro do que processos ainda não iniciados. Só não lembro do nome deste termo… Isso ajuda a explicar porque às vezes temos inspiração de fazer algo, só que depois que ela some, não volta. Se quando tenho vontade de escrever algo eu não aproveitar e começar o texto, mesmo sendo só um rascunho bem incompleto, a minha cabeça não vai colocar esta atividade no modo “já começado” e vai deixar no modo “faz quando tiver vontade no futuro”. E isso pode protelar muito as coisas ou até torná-las irrealizáveis.

Por isso, quando você quer ou precisa fazer algo, por mais gigantesco ou complexo que seja, comece agora! Crie um arquivo novo do seu projeto de jogo, do seu texto do blog, do seu livro, um rascunho da sua arte, uma base da sua escultura, seja lá o que for, mas dê o pontapé inicial. Então sua cabeça vai tratar como “é só acabar de fazer”, ao invés de “preciso começar algum dia”; e com essa maior prioridade a chance de você voltar e refinar mais e seguir em frente até acabar é muito maior. Só não caia na armadilha de exagerar e ter 40 projetos iniciados ao mesmo tempo… sua cabeça vai dar curto-circuito e esquecer da metade no mínimo, além de estressar por nunca acabar nada…

Nota: esta parte eu lembrei agora no meu modo difuso do texto, não faz parte do curso no Coursera🙂

 

 

Crie mais pinos na sua cabeça

Se a sua cabeça é uma mesa de pinball ou pachinko e as sinapses são os rebatimentos da bola nos pinos, quanto mais pinos, melhor! Cada pino representa suas ideias, cultura, experiências, padrões processados… de todas as áreas da sua cabeça. Não adianta estar regularmente no modo difuso se não há muitos pinos para rebater! Não vai sair nenhuma ideia nova daí…

Se inovações são na verdade associações inusitadas de elementos que a princípio não tem ligação, quanto mais elementos estiver na sua cabeça, melhor. Por isso independente do que você estiver trabalhando, criando, pegue influências e referências de tudo que for possível. Vá ao cinema, teatro, museu, exposição de todo tipo (pintura, escultura, fotografia, objetos antigos…), conheça outras culturas – viaje, ouça músicas estranhas, coma coisas estranhas, jogue coisas que você não jogaria, incluindo jogos ruins, digitais e físicos, faça exercícios, pratique parkour e tente andar de monociclo (se tiver um plano de saúde bom), etc. Alimente a sua cabeça com as coisas mais variadas possíveis, e ai sim o modo difuso pode resultar em ideias novas e selvagens.

 

Veja aqui alguns exemplos de elementos que aparentemente não fazem sentido juntos, mas foram a base para criações interessantes:

  • Espada + laser = sabre de luz
  • Arma + gravidade = arma de gravidade do Half-Life 2
  • Futebol + carros = Rocket League
  • Música + RPG = Crypt of the Necrodancer
  • Mario + voltar no tempo = Braid
  • Inflar balão + plataforma + puzzle + cooperativo = Shiftlings
  • Shooter + mudar cor = Ikaruga
  • Tinta + plataforma + tiro = Splatoon
  • Lixo + viagem no tempo = capacitor de fluxo do Deloren (Volta para o Futuro)
  • Portais + arma + tinta + puzzle + cubos = Portal 2
  • Puzzle + acrobacia + fluídos + bombas + show na TV = Super Splatters
  • Hamburger + azeitona = Millennium Falcon
  • Plataforma + magnetismo = Polarity
  • Pássaros + raiva + puzzle + física = Angry Birds
  • Guerra sangrenta com aliens + faxineiro = Viscera Cleanup Detail
  • Controles complicados + física exagerada + cirurgia = Surgeon Simulator
  • Controles complicados + dísica exagerada + pão = I am Bread
  • Fungo + crescimento infinito + plataforma + puzzle = Mushroom 11
  • Esher + girar o mundo = The Bridge
  • 2D + 3D = Perspective
  • Dólar nas alturas + carga tributária absurda + outros fatores nefastos = os jogos mais caros do mundo no Brasil
  • Drogas alucinógenas = Katamari Damacy
  • Pinball + estratégia militar = Odama
  • Escrever qualquer coisa + puzzle = Scribblenauts
  • Puzzle + física + bolas de meleca = World of Goo
  • Marionetes + kung-fu = Rag Doll Kung Fu
  • Plataforma + puzzle + bolha de mercúrio = Mercury
  • Pão doce + embutidos de porco = Cuca de linguiça da padaria perto de casa…

 

Então não esqueça: dê um descanso regular para a sua cabeça e ela vai retribuir com boas ideias! Bons sonhos difusos!

 

Extra: