Pra que não conhece a história, Toren é um projeto que começou como trabalho de conclusão de alguns alunos do curso de pós-graduação em desenvolvimento de jogos na PUC-RS, em Porto Alegre. O primeiro protótipo chamou muito a atenção da mídia quando teve um trailer divulgado, pela beleza dos gráficos e foco em uma experiência mais poética, evitando ação frenética que é tão comum em jogos tradicionais. Com essa repercussão positiva, o grupo resolveu seguir em frente e tornar aquela ideia em um jogo de verdade, comercial. A equipe cresceu com um produtor, alguns freelancers, parceria com outros estúdios para produção de efeitos sonoros e música, até finalmente encontrar um publicador para ajudar com a divulgação e abrir as portas para entrar no Steam e no PS4. Foi uma longa jornada de 4 anos, desde aquele trabalho de curso sem nenhuma pretensão, até um jogo completo em um console de última geração.

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Eu conheço pessoalmente os criadores; inclusive o produtor – Vitor, trabalhou comigo na organização do festival de jogos do SBGames 2014. Tenho uma boa noção do quanto eles lutaram para o jogo ser feito, e independente do resultado, certeza que merecem todo o reconhecimento só por conseguir chegar no final do processo. Mas para a análise escrita aqui, procurei ser o mais sincero possível, falando de forma aberta sobre a minha experiência com o jogo, na visão de jogador, como se ele fosse um produto indie feito em qualquer lugar do mundo. Não vou levar em consideração que são brasileiros e toda a dificuldade de produzir algo por aqui. Se queremos conquistar um lugar no difícil mercado de jogos internacional, precisamos estar dentro da qualidade geral esperada, não é mesmo?

 

Pois bem, a minha primeira impressão com Toren não foi muito positiva… (joguei na versão PC). Logo no início percebi diversos problemas que ficavam atrapalhando minha imersão, me lembrando constantemente que estava vendo um software que processava modelos 3D, e não um mundo surreal de fantasia onde poderia mergulhar de cabeça e esquecer da realidade por algumas horas. Diversos problemas como movimento brusco de câmera, animação que parecia flutuar do chão e transição brusca entre alguns movimentos, modelos que transpassavam outros (como a asa do dragão que entrava na parede), texturas escorridas na parte lateral de objetos, corte brusco em efeitos sonoros e música entre loadings, bug de colisão onde o personagem parecia cair na borda do penhasco antes do que deveria (ou ficar pendurado quando ainda havia chão), bug de loading quando carreguei o jogo e o personagem despencou morrendo de novo (carregou abaixo do chão), pulo impreciso, principalmente sobre abismos que pareciam longe demais para alcançar e a personagem quase caminhava no ar com um arco do pulo baixo demais…

Enfim, nada que tornasse o jogo injogável, mas atrapalhava muito. Eu queria prestar atenção na história e naquele mundo diferente, mas isso tudo impedia. Alguns dias depois do lançamento chegou o primeiro patch, mas não pude observar grandes melhorias nesta parte estética e de jogabilidade.

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Quando voltei a jogar no outro dia, já com expectativa menor em relação a esta falta de polimento e acostumado com estas questões problemáticas, consegui ignorar tudo e curtir mais a história e o jogo em si. A história de Toren é contada de forma que exige do jogador atenção e boa interpretação. Tudo é muito místico e poético, o Mago que fala com você costuma usar frases mais soltas, meio bíblicas. Não espere uma história tradicional que é só ler e pronto, você vai precisar observar o cenário, ler o texto, absorver as metáforas, os significados e deduzir algumas coisas.

 

A base da história é sobre uma menina que começa como bebê e vai até a idade adulta, enquanto escala uma torre. Há um dragão que tenta impedir isso e pode facilmente te transformar em pedra. E um Mago que seria uma espécie de mentor e é um dos responsáveis por contar a história. Há muitas interpretações e você vai precisar preencher as lacunas sozinho. Além do cenário principal que é a torre, existem fases opcionais (mas importantes para a história) que são sonhos, com um visual bem diferente. Então imagine ao entrar no jogo e me deparar com toda essa complexidade e confusão (no bom sentido) da história, com fases aparentemente largadas no meio do jogo (os sonhos) e todos aqueles problemas técnicos que comentei antes, tudo isso me deu uma impressão negativa de início.

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Depois as coisas foram fazendo mais sentido, a história ficando mais épica, o cenário evoluindo, e por fim a minha impressão final do jogo mudou bastante, para melhor! Olhando através da casca rústica da falta de polimento, a arte em geral – construção do cenário, cores, efeitos de luz, é muito boa! Principalmente as fases de sonhos, as mais inspiradas, tem um design muito surreal e marcante. É realmente poético como alguns cenários foram montados, a escolha da ambientação, sem falar da música que é fantástica. Aos poucos o jogo conseguiu sugar minha alma e finalmente vislumbrei toda a força artística que foi empregada nele. A mitologia da história, a beleza dos cenários, a ambientação fantástica criada através de detalhes visuais e da excelente trilha sonora… A cena final dos créditos é um bom exemplo disso, é simples mas muito bem montada, com ilustrações de altíssima qualidade, trilha sonora cantada espetacular (até lembrou Journey)… ajudou a deixar a impressão final que Toren é um diamante ainda não lapidado como deveria.

 

Um trecho da gravação da música… É o primeiro jogo brasileiro com uma produção musical deste nível? Acredito que sim!

O jogo tem uma coleção de inspirações fortes como o clássico ICO, uma capacidade artística de alto nível (design visual, sonoro, história poética), mas infelizmente peca pela camada externa rústica. Em questões de gameplay, tudo se resume a pular em plataformas, combate muito simples e alguns micro puzzles. Não há dificuldade ou desafio, além de vencer os problemas da jogabilidade. Tenho que confessar que algumas partes podem ser irritantes, apesar de criativas, como a cena totalmente escura com os relâmpagos (quem jogou sabe o que estou falando), mas no geral é bem interessante realizar todas as atividades que o jogo pede. O foco não é um gameplay complexo, e sim a história, ambientação, a experiência no geral.

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Eu joguei duas vezes para descobrir todos os segredos e fases de sonhos que acabei deixando passar, e na segunda vez curti mais a história, entendendo melhor alguns detalhes. Sobre os problemas técnicos, talvez a Swordtales continue lançando patchs e corrija boa parte deles, porém as análises feitas por vários sites não irão mudar. A nota no Metacritic teve média 6, a maioria concorda com a questão dos problemas atrapalharem apesar da qualidade artística, já outros jogadores mais “mente fechada” acostumados com jogos comerciais tradicionais, só reclamam do jogo ser curto, não ter desafio, etc…, e sabemos que o foco não é esse.

Se Toren tivesse o polimento que merece seria certamente muito melhor avaliado, talvez até virasse um cult indie, mas agora é tarde (pelo menos para este impacto inicial de análises que podem influenciar futuros interessados em comprar o jogo).

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Concluindo: Se você tem pelo menos um pouco de interesse sobre o futuro do mercado de produção de jogos brasileiro, compre e jogue Toren. Apesar dos problemas, é o único jogo nacional que ousou ser poético e fugir das produções tradicionais tão mais fáceis de fazer, que ousou se inspirar no clássico ICO, que conseguiu ter uma bela trilha orquestrada, que criou um precedente excelente sendo aprovado na lei Rouanet de incentivo à cultura do governo, que conseguiu uma menção honrosa na IGF (que pode ser considerado o festival de jogos independentes mais importante do mundo), ou seja, é um marco na produção nacional. Talvez esta lei de incentivo tenha uma data limite para lançar o produto e isto impediu o polimento necessário, ou alguma pressão do publicador, enfim, não tenho ideia do que houve referente aos problemas que atrapalham o jogo. Não é fácil produzir algo com este foco artístico, sendo que é o primeiro trabalho do estúdio.

 

Desejo sucesso à Swordtales e ficarei de olho em tudo que eles fizerem no futuro. Algumas cenas de Toren ficarão marcadas na minha mente e tenho certeza que ele será uma referência para outras produções nacionais que gostariam de ousar mas não tinham em quem se inspirar ainda.

Toren pode ser comprado por R$20,00 no Steam ou outras lojas virtuais no PC, ou através da PSN para PS4. Site oficinal: http://toren-game.com/

Extra: aqui uma análise internacional que deu nota máxima.