Todo ano posto aqui as minhas impressões sobre o SBGames. Desta vez também farei isso, só que será um relato diferente, não na visão de um participante, mas na perspectiva de quem trabalhou na organização; afinal fui chair local do festival de jogos este ano. Além disso, foi um evento especial porque ocorreu na minha cidade – Porto Alegre – o que é positivo (não preciso de hotel…) e também negativo em alguns aspectos…🙂 pois continuei trabalhando e alguns dias fiquei 2 turnos no evento e ainda com aula na noite… mas tudo bem, faz parte!

entrada

 

Festival de Jogos – o que tem de complicado nisso?

Na teoria é fácil organizar, basta enviar os jogos submetidos para os juízes avaliarem, fazer uma média das notas e divulgar os vencedores…

Mas na prática a coisa é bem mais complicada!

 

Já ajudei a organizar o festival alguns anos atrás, só que agora tudo é muito maior, com uma quantidade imensa de jogos enviados (mais de 260)! E a lista de juízes que aceitam avaliar não é muito grande… ou seja, não tem como enviar um monte de jogo para cada juiz, a conta não fecha. Então precisa ser feita uma pré-avaliação, uma filtragem inicial para depois avaliar mais profundamente os jogos. Os juízes primeiro respondem um questionário simples para cada jogo, dizendo se ele tem qualidade mínima para participar do festival na sua opinião, e escrevem um feedback que depois será enviado para o autor. Então com as respostas médias, determinamos quem segue para a outra fase, onde uma quantidade bem menor de jogos são enviados novamente para uma análise mais profunda em categorias como arte, game design, som…, gerando novos feedbacks. (ano passado já usava este processo)

 

Só que acontecem vários problemas no meio do caminho… alguns juízes simplesmente não avaliam e nem avisam que não podem mais avaliar, e ai precisamos enviar os jogos que ainda não tem avaliações suficientes mais uma vez, e o prazo da divulgação de cada fase vai esticando…

Os juízes são peças fundamentais no processo, alguns entregam tudo antes do prazo e ainda avisam que se houver necessidade podem avaliar mais jogos, porém outros não participam como combinado e acabam atrapalhando todo o andamento. Claro que imprevistos acontecem e a correria do dia a dia complica muito, afinal avaliar os jogos é um trabalho voluntário, então entendemos que às vezes fica difícil, porém isso afeta diretamente o progresso do festival. Aliás esse problema é crítico e acontece em todas as trilhas do evento. Acredito que no futuro seria interessante abrir alguma chamada pública, permitir quem está interessado em avaliar ser um voluntário. Assim teríamos certeza que todos que estão participando têm muita vontade de realizar essa tarefa e provavelmente não vão deixar o festival na mão (ou a trilha em questão se for feito em outras trilhas).

Só que nesse caso deveria ser estudado os critérios para o avaliador ser aceito ou não, evidentemente não pode ter nenhuma ligação com os jogos participantes, etc. É algo para se pensar no futuro, já que a quantidade de jogos enviados continua aumentando a cada ano e a lista de juízes cresce pouco.

Outra coisa que ajuda a atrabalhar são algumas submissões com erros, links de download que expiram em pouco tempo ou que obrigam a instalar coisas estranhas para baixar, etc. Precisamos antes de tudo dar uma conferida geral, entrar em contato com os autores, e isso toma tempo!

banner

 

corredor

 

 

Ajustes no festival

De acordo com o feedback recolhido ano passado, começamos a ver quais as alterações deveriam ser feitas nas regras do festival. Aliás, desde o final de 2013 já estávamos conversando. As alterações maiores foram:

 

*Inclusão de advergame – Ninguém mais aguenta o papo do que significa um jogo ser indie, se ter investimento deixa de ser indie, se o tamanho da equipe importa, etc. O SBGames nasceu como um evento puramente acadêmico a fazia sentido só permitir jogos bem independentes, ou de estudantes, sem nenhum tipo de encomenda na criação e assim por diante. Porém agora o evento está enorme com várias trilhas como indústria, festival de arte, … a parte acadêmica não é a única a ser abordada. Por isso chegou a hora de dar espaço para os melhores jogos do país serem exibidos e premiados, não somente de estudantes ou totalmente indie. Então faz sentido incluir os advergames, que é um tipo de jogo importante na produção nacional. Ou seja, o festival de jogos independentes virou simplesmente festival de jogos. Ainda premiamos melhor jogo de estudante, mas todos os outros tipos de jogos são aceitos.

 

*Categoria independe de plataforma – Começamos a ver que muitos jogos misturavam a plataforma de desenvolvimento com a categoria… Por exemplo, se é um jogo educacional (categoria serious game), pode ser feito em PC, em dispositivo mobile… Ou seja, existiriam jogos mobile fora da categoria mobile… Com isso precisamos criar a diferença entre plataforma e categoria. O autor poderia escolher a categoria e quantas plataformas gostaria de submeter o jogo. Se tinha versão PC, mobile, poderia enviar ambos e de acordo com a disponibilidade dos juízes, seria avaliado uma versão ou outra. Mas a categoria era uma só, isso seria levado em consideração na avaliação. Se é um advergame por exemplo, deve ser levado em conta a influência do cliente e fim comercial do produto, independente do jogo rodar na web, em tablets, etc.

 

*Facilitar submissão – Pessoal reclamou que era muito complicado mandar um jogo, precisava de 2 vídeos, com limite de tempo, banner de tamanho específico, etc. Agora excluímos os banners e deixamos somente um vídeo como requerimento (de jogabilidade, usado na avaliação da fase 1 e como suporte nas outras fases) e sem limite de tempo. Pode ser enviado também um trailer, mas não é obrigatório.

 

*Inscrição mais barata para quem quer só participar do festival – A inscrição no SBGames pode não ser muito acessível para um estudante pagar, e para os jogos que estão no festival, especialmente se foram feitos por uma equipe grande, seria interessante permitir que paguem menos se não tiverem interesse em participar do resto do evento. Este ano conseguimos ter a opção de inscrição gratuita para os jogos expostos no festival (finalistas), bastava um membro da equipe pagar e os demais ficaram liberados. Porém, claro, quem quer participar de todo o evento, ainda precisa fazer a inscrição paga.

 

*Um jogo por máquina – Em outros SBGames cada máquina do festival tinha todos os jogos instalados. Os jogadores precisariam escolher e rodar cada jogo para jogar. Mas isso gerava problemas: não ajudava com a divulgação do jogo, já que ele não era exclusivo de uma máquina e não ficaria sendo visto todo o tempo, o público jogava alguns e desistia de ver todos, e quem estava na fila precisava esperar muito pois cada pessoa iria ficar um tempão jogando vários jogos… Este ano conseguimos colocar só um jogo por máquina e com uma TV grande exibindo os jogos, isso ajuda muito na divulgação, basta passar o olho pra ter uma ideia dos títulos, mais fácil de fotografar, o desenvolvedor pode ficar no lado do seu jogo o tempo todo pegando feedbacks do público, etc. Porém a quantidade de jogos finalistas precisava ser menor para ter máquina disponível para todo mundo, por isso a nota de corte da última fase de avaliação precisou ser alta. Temos certeza que muitos jogos bons ficaram de fora, porque era muita gente competindo e às vezes basta um pequeno detalhe na avalição para mudar o resultado.

festival2

festival

 

Por mais que a gente se organize, imprevistos são assim: imprevisíveis!

Bem, fica difícil eu dar a minha sincera opinião sobre o evento no geral, pois fiquei muito tempo isolado no festival, especialmente no primeiro dia. A quantidade de pequenos detalhes que se comportam do jeito que a gente não espera é imensa! Questões de tomadas, cabos que quebram, móveis que não tem aberturas dos dois lados nem suporte interno e obriga que seja feito um malabarismo com bancos, caixas e CPUs empilhadas para os cabos da TV conseguirem chegar nas máquinas, etc, etc e etc…

Muitas horas de correrias para resolver todas essas questões, de uma grande equipe entre organizadores locais do festival, gerais de todo SBGames, voluntários no evento, pessoal de suporte das máquinas, TV´s… cada tipo de problema exige um setor diferente…

 

Só vou comentar um episódio para demonstrar o quanto coisas estranhas acontecem… Instalamos todos os jogos nas máquinas do laboratório na PUC, que seriam usadas no evento, no início da semana. A intensão era chegar no dia do SBGames, só colocar as máquinas no lugar, ligar tudo e pronto, festival 100% funcional no primeiro minuto do evento.

Porém, depois de todo mundo brigar com os problemas de cabos e instalação física que ocorreram no dia anterior e na manhã do início do evento, ao ligar as máquinas, não tinha nenhum jogo instalado…!!?! Onde foram parar?

Depois de falar com o pessoal do suporte acabamos por descobrir que as máquinas tinham uma configuração de se “limpar”, removendo tudo que foi colocado, se o login não for usado novamente em 24h… Como a instalação geral foi no início da semana, o login especial para o evento passou do prazo e todas as máquinas ficaram limpas, sem jogo nenhum! Então toda a preocupação de fazer tudo com antecedência não serviu pra nada. E ai precisamos, enquanto o evento começava, instalar e testar tudo de novo… Tudo bem, não é muito trabalho mas tomou um tempo considerável até o festival estar ativo e funcionando plenamente. Só estou comentando isso para mostrar que sempre organizar evento é uma caixa de surpresas e o nosso amigo “Murphy” está constantemente na espreita!!!

 

O mais legal é que depois da correria de horas e mais horas pra resolver todas as encrencas, quando tudo parece estar ok, dou uma olhada geral no evento e tenho aquela ótima sensação de “cara de GDC”… Estantes de jogos rodando as melhores produções nacionais, um bom público se divertindo com eles, autores pegando feedback na hora, a imprensa registrando o evento, ou seja, são jogos nacionais com um nível de qualidade internacional, e todo mundo curtindo. E dá mais orgulho ainda o fato que tudo é montado “no amor”, afinal não sei se vocês sabem, o SBGames é feito por voluntários, todo mundo que trabalha na organização (e é uma multidão de gente!) não ganha nada por isso, estão fazendo pelo gosto de colaborar com o crescimento da área de jogos no país. Então depois da tempestade ver aquele visual de GDC nacional me deixou muito feliz. Compensa todo o trabalho e correria.

 

GDC feelings

GDC_feelings1

GDC_feelings2

GDC_feelings3

GDC_feelings4

GDC_feelings5

jogo_nacional

 

Novidades

O evento deste ano foi bem grande, ocupou toda a área de convenções da PUC que é enorme e teve como uma das grandes novidades o SBGames Kids e Teens, com uma programação paralela para as crianças e jovens, que ainda tiveram acesso ao museu interativo de tecnologia da PUC que é fantástico. Inclusive ocorreu um ARG lá.

Por falar em jogos alternativos, o evento desta vez contou com uma gamificação. Meu amigos da Rockhead Games criaram um jogo mobile de capturar itens, que eram QR Codes colados em várias partes do evento. O objetivo era fazer as pessoas circularem e deu muito certo, a quantidade de gente procurando os itens era enorme. Os melhores colocados ganharam bons prêmios como um curso da Unity, edição de colecionar de jogo, etc.item_quest

O lado negativo, se é que podemos chamar assim, é que algumas pessoas ficaram tão viciadas no jogo que talvez deixaram de ver o evento para procurar QR Codes!🙂 Todo dia os códigos mudavam de lugar e também estavam em locais bem escondidos, até em crachás de keynotes! No último dia tinha gente pedindo licença e até olhando embaixo da mesa na área da cafeteria, mesmo com pessoas sentadas ali. Pra fazer um teste da popularidade do jogo, acabei por criar manualmente um QR Code de brincadeira no meu crachá e consegui atrair mais de 10 pessoas que vinham de longe na minha direção com o celular na mão e só percebiam a enganação de perto…🙂

fake

 

Ah, e também ocorreu o primeiro Game Jam do SBGames! Pessoal ficou confinado aqui dentro:

game_jam1

game_jam2

 

Quanto ao que pude ver do evento: parei para assistir uns dois keynotes (especialmente a Kellee Santiago, já que sou fã da thatgamecompany) e dei uma espiada rápida no restante, mas não pude participar mais profundamente em outras trilhas pois estava envolvido com a organização. Então na minha visão acredito que foi um evento excelente, conseguimos resolver alguns problemas que ocorreram no ano passado, como agrupar tudo sob um teto só, evitando que todo mundo ficasse perdido, e usar um auditório grande para a trilha da indústria, pra ninguém ficar do lado de fora.

Outra coisa legal foi na area da mostra de artes, tinha cursos ao vivo (como de Pixel Art, animação 3D, audio design), não me recordo disso ter acontecido em outras edições do evento.

Além de tudo a Aquiris Game Studio que fica instalada no campus da PUC, e é uma das maiores empresas do país na área, abriu as portas durante o SBGames e criou uma programação paralela, muito bom!

 

Sugestões

Uma sugestão para quem for organizar o festival de jogos no próximo ano: será que não está na hora de eliminar a categoria mobile? Os dispositivos já estão com um processamento muito bom e tem jogos quase tão sofisticados quanto de desktop, então unificar poderia ser mais prático. Ainda precisaria ter outras categorias como advergame, outras plataformas (para dispositivos especiais e board games), serious para jogos de treinamento e educacional; mas mobile e PC poderia ser uma coisa só. Fica em aberto essa discussão.

 

Sobre a mostra de arte, a minha opinião é que deveria ser impresso ao invés de usar TVs para exibir a arte. Pois as TVs que estavam lá eram poucas, as artes trocavam rapidamente e algumas eram mostradas em movimento, ficava difícil ver o todo ou focar opcionalmente em algum detalhe. Com a impressão grande no estilo quadro, dá para ver muito melhor (mas claro, o custo aumenta bastante). Ou pelo menos ter mais TVs e um simples slideshow lento sem movimentação das imagens. Isso é a minha opinião pessoal, não vi mais ninguém falando sobre esta questão.

 

Ah e também não gosto de DJ no meio do evento… o som alto pode atrapalhar ouvir os jogos, dificulta a conversa entre os participantes, até atrapalha o keynote no auditório ao lado. Aconteceu uma vez e pedi para baixar o som, acabou resolvendo, mas fica minha dica para o futuro, DJ é desnecessário… o som ambiente das conversas e dos próprios jogos do festival já basta.

 

E você que foi no SBGames, o que achou?

 

kelle

board

cubo

Pra quem ainda não experimentou o Oculus Rift…

oculus

E se ficar tonto…

medic

Um dos jogos de outras plataformas, para fisioterapia: jogando com colete, inclinando o tronco…

wii

Kellee Santiago, certamente a keynote mais esperada…

kelle2

Olha o Ouya!

(a própria Kellee que trouxe, colaborando com a equipe brasileira que está fazendo o jogo)ouya

Futuro desenvolvedor…

futuro

Os 4 chairs do festival: Bruno Campagnolo (TECPAR/PUCPR), Isabel Siqueira (Uniritter), Vitor Severo (ADJ/Swordtales) e eu – Mauricio B. Gehling (Unisinos). Detalhe: a Isabel estava quase ganhando a sua filha e eu recebi o meu não fazia um mês!4chairs

Soraia Musse: a Big Boss. Bom humor e competência sob stress extremo, só com ela!

soraia

No fim só resta comemorar, missão cumprida!organização

 

O Jesús Fabre do projeto The Gamer Inside criou este vídeo com todos os projetos e jogos apresentados:

 

E gravou o encontro indie Inculto 3 que aconteceu na Aquiris durante o evento:

 

Alguns keynotes foram filmados oficialmente no SBGames, e a intenção é que os vídeos sejam colocados no Youtube, mas não tenho mais informações de quando isso será feito; quando acontecer atualizo aqui.