Este post tem duas funções. Serve para engordar a categoria do blog de “jogos que marcaram a minha vida”, e também irá fazer uma breve análise de um jogo mais moderno, que na verdade é remake de um clássico… ou seja, estou falando da mesma coisa: R-Type!

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A sua desenvolvedora, a japonesa Irem, foi criada em 1974. Na época seu foco era produzir, vender e alugar máquinas arcades (hardware somente). Em 1978 começou a produzir jogos. O estranho é que as vendas estavam tão ruins em 1994 que o desenvolvimento de jogos foi praticamente paralisado. Então um grupo de funcionários saiu para fundar sua própria empresa, que acabou produzindo Metal Slug para SNK; por isso alguns jogos tem a arte semelhante ao Metal Slug…

Irem_Logo

O que encerrou de vez todos os projetos de jogos da empresa foi o tsunami em 2011 no Japão, que gerou uma crise no país e fez com que a Irem retornasse a sua antiga função de somente montar hardware para arcade (do tipo caça-niquel e semelhantes). Com isso os últimos designers saíram e acabaram por criar outro estúdio… mas infelizmente só fizeram alguns projetos pequenos e estranhos para PS Home…

 

Apesar da história complicada, a Irem produziu muitos clássicos, especialmente shooters de nave (shoot´em up ou shmups para os íntimos). Um dos seus primeiros sucessos foi Moon Patrol (joguei no MSX!), dentre outros clássicos como In The Hunt, Kung-Fu Master (esse era beat´em up, o primeiro da história), além claro da série R-Type. A Irem virou sinônimo de bom shooter, mostrando criatividade nas mecânicas, belos gráficos e altíssimo nível de desafio.

Moon Patrol

 

Kung-Fu Master

 

In The Hunt

 

Pois bem, R-Type foi um dos primeiros jogos marcantes desse gênero, um dos principais shoot´em ups da história. Criado em 1987, introduziu uma nova mecânica de upgrades, onde a nave poderia usar o “force”, um escudo indestrutível e arma que permite uma grande variedade de situações de gameplay. Com um botão é possível atrair ou repelir o force, ao ficar solto ele atira para cima e para baixo (dependendo do nível de evolução), porém a nave perde o escudo. Quando é conectado, o tiro fica mais forte e concentrado, e o escudo protege de projéteis inimigos (somente tiros fracos). Outra possibilidade é encaixar o force na parte de trás da nave, atirando em outra direção.

Essa manobra é fundamental, pois o jogo te abriga a se defender de todos os lados da tela.

Além disso, os inimigos maiores têm áreas sensíveis a danos, então manobrar o force para conseguir atingir essas áreas é um dos elementos principais que torna o jogo especial e diferente de qualquer outro.

PODS

Também o fator sobrevivência é um foco importante em R-Type. Enquanto outros shooters só pedem que o jogador destrua tudo que vier pela frente, este jogo te obriga a primeiro sobreviver, depois eliminar os inimigos. A câmera anda lentamente e muitos cantos do cenário podem te espremer, além dos inimigos que invadem a tela em fila ou individualmente com movimentos variados, e ao encostar em qualquer coisa é morte certa. A dificuldade é alta porque depois de morrer a tela escurece e volta ao último checkpoint, que pode ser no início da fase. Ou seja, se levou só um tiro do boss, retorna e começa a luta do início. Outros jogos permitem acumular vidas e ir morrendo e seguindo em frente, mas aqui a história é outra. Obrigatoriamente o jogador precisa passar por todos os desafios, dominar a fase inteiramente.

 

R-Type tem um leve sistema de RPG, pois os upgrades se acumulam e “sobem de nível”. Ao pegar no cenário um item que evolui o force, ele fica maior, aumentando a área de escudo e a força do tiro, bem como suas características (laser ricocheteia em superfícies, fogo percorre teto e chão, etc). Também pode trocar o tipo de tiro de acordo com a cor do item. Também tem upgrades de velocidade para a nave andar mais rápido (pegar mais que dois pode ser um problema, os controles ficam muito sensíveis), míssel e os “bits” que são pequenas esferas que andam junto com a nave e servem como escudos extras acima e abaixo (pode ter até dois ao mesmo tempo). O jogo fica bem mais fácil quando o force está totalmente evoluído e a nave tem esses acessórios, inclusive ao passar de fase tudo permanece. Porém quando morre volta totalmente pelado… e ai a coisa complica.

Outra possibilidade interessante é segurar o botão de tiro para acumular um super tiro, que é muito forte especialmente se acertar a área sensível de um boss.

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De acordo com uma entrevista com os desenvolvedores da Irem: “Parte da diversão dos jogos da série R-Type vem da sua natureza de quebra-cabeça. Quando o jogador morre, pensa coisas como: “eu deveria ter ido naquela direção”, ou “eu deveria ter equipado o force atrás da nave”. É importante que pequenas dicas sejam deixadas para o jogador descobrir o que fez errado. Isso permite que ele progrida através das suas próprias habilidades. Se ele pensa: “esta parte é impossível”, provavelmente irá parar de jogar. Sentir uma sensação de melhoria / evolução / progresso, que jogou melhor hoje do que ontem, é uma força da série R-Type.”

Concordo plenamente! Isso é o que diferencia um jogo frustrante e insuportável de um jogo difícil, desafiador mas fascinante. É a diferença entre desistir de jogar ou insistir até superar o desafio, com uma imensa sensação de realização no fim.

 

O jogo tinha uma atmosfera, clima, bem diferente para a época. Era lento, dando tempo de observar o cenário e absorver o ambiente… Os inimigos variavam de naves e robôs totalmente mecânicos até criaturas orgânicas lembrando vermes ou crustáceos. O primeiro boss tinha uma grande semelhança com o clássico mostro do filme alien. Quando era criança joguei no Master System e ele ficou marcado na minha mente, passar por aqueles cenários alienígenas orgânicos e bizarros era bem tenso, e também me marcou por causa da grande dificuldade… nunca consegui acabar. As primeiras fases com algum treino são bem fáceis, mas logo após a dificuldade sobe drasticamente. rtype-9

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Joguei durante as férias de verão na casa dos meus primos no interior, mas como não tinha o jogo em casa, não podia treinar mais… Certamente nunca ter conseguido chegar no fim dele ajudou a nunca mais esquecê-lo…

Além dos gráficos, as músicas eram muito boas e contribuíam bastante com o clima.

A série R-Type foi composta de vários jogos, sendo que muitos deles têm elementos parecidos, como o clássico boss da fase 1 – em várias versões diferentes, e uma fase inteira dedicada a destruir uma nave gigante.

 

Os principais jogos são:

(excluindo alguns relançamentos e compilações sem conteúdo original relevante)

 

  • R-Type – 1987 – versão arcade e depois muitos ports para vários consoles.
  • R-Type II – 1989 – versão arcade e depois outros ports, incluindo SuperNES, com algumas modificações – fases novas (com o nome de Super R-Type).
  • R-Type Leo – 1992 – somente arcade, primeiro com multiplayer ao tempo tempo (morre e continua direto), os outros jogos permitiam dois jogadores, mas era cada um no seu turno. Esse jogo não tinha o force, mas dois bits mais evoluídos com ações especiais.
  • R-Type III: The Third Lightning – 1994 – SuperNES, depois portado para GBA. Desta vez com 3 tipos diferentes de force para escolher.
  • R-Type Delta – 1998 – somente PS1, primeiro com gráficos 3D.
  • R-Type Final – 2003 – o capítulo final, somente PS2, com muitos segredos, variações dos cenários e mais de 100 naves diferentes. Foi a despedida da série.
  • R-Type Command (no Japão: R-Type Tactics) – 2007 – surpresa, um jogo de estratégia em turnos para PSP! (eu passo…). No Japão chegou a sair a continuação dele.
  • R-Type Dimensions – 2009 – XboxLive (lançado em 2014 na PSN, por que tanta demora??) – um remake em 3D dos dois primeiros jogos da série.

 

  • Extra: Armed Police Unit Gallop – 1991 – arcade japonês, faz parte da série R-Type pelo contexto da história e sua nave aparece em R-Type Final e Command. Porém este jogo é bem diferente, não tem o force, com rolagem de tela muito mais rápida, sem elementos orgânicos, por isso eu não considero com sendo um verdadeiro R-Type.

 

 

R-Type Dimensions, uma nova dimensão para R-Type.

Depois de tantos anos com a franquia morta (desconsiderando o Command que é TBS e não conta), surge um novo R-Type! É um remake do clássico primeiro jogo da série, além do segundo. As novidades são gráficos 3D opcionais, multiplayer (mas no PS3 somente local, sem rede) e um novo modo com vidas infinitas. Se quiser ainda tem opção de usar uma “câmera lenta” para quem precisar de uma ajuda extra…

Mas quem desenvolveu esse remake não foi a Irem, e sim a SouthEnd Interactive (publicado pela Tozai), que não teve acesso ao código fonte do jogo original e precisou fazer engenharia reversa para criá-lo! Que trabalheira… É uma recriação perfeita das versões arcades dos dois primeiros R-Types da história.

Finalmente teria minha chance de retornar a esse universo em grande estilo, e agora podendo ir até o fim! O modo infinito permite morrer e continuar direto, sem checkpoints, e ai a graça é tentar morrer cada vez menos (o jogo registra o número de vidas perdidas…), e isso destranca as fases para o modo clássico (poucas vidas, ao morrer retorna ao checkpoint, mas com continues infinitos, como sempre foi aliás).

Então quem quer só passar pelo jogo vai no modo infinito, depois pode ir treinando no modo clássico, inclusive escolhendo qual fase quer começar. Os jogos são curtos, um jogador expert que não morre nunca consegue chegar no fim em menos de meia hora em cada. Mas no meu caso, para conseguir passar por tudo no modo clássico e fazer alguns achievements mais complicados (ex: passar da primeira fase só com super tiro, sem upgrades – sem force, e sem morrer), gastei quase 10h em R-Type Dimensions!

Certamente o grande atrativo dessa compilação são os gráficos 3D, que encaixam perfeitamente (pixel a pixel praticamente) com os gráficos 2D. O legal é que pode fazer uma transição suave entre um estilo de gráfico e outro a qualquer momento, bastando apertar um botão. Quando dá aquela curiosidade em ver como era o sprite que serviu como base para qualquer modelo 3D e vice-versa, é só conferir na hora. É incrível como em alguns casos o sprite original era muito superior aos gráficos 3D, o detalhamento dos desenhos era muito bem feito.

Essa transição também acontece com a música, do original ao remix moderno.

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Neste jogo o multiplayer local é em tempo real, duas naves ao mesmo tempo.

Há um botão para “rapid fire” e outro de tiro comum, que se manter pressionado carrega o super tiro. O jogo original não tinha rapid fire e precisava cansar o dedo…

Aliás o Master System tinha um acessório para rapid fire, lembram? 🙂

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O jogo custa US$10,00, mas atualmente está em promoção pela metade do preço! Inclusive na PSN brasileira. Aproveite, é só até 2 de setembro.

 

Recomendo?

Se você acha justo o preço pelo conteúdo oferecido (poderia ter outros R-Type no pacote), e quer reviver essa experiência clássica e desafiadora, vale a pena certamente. Se tiver algum amigo próximo para um coop, melhor ainda.

Mas ao tentar fazer alguns achievements, acabei por sair várias vezes do jogo e ir para o menu principal, para começar de novo, e ai descobri um bug que congelava tudo e precisava desligar o PS3 a força. A tela ficava preta só com a música tocando… Isso aconteceu algumas vezes e foi bem irritante, porém ao jogar normalmente sem sair para o menu toda hora, funcionou bem. Então tem algum problema de programação ai mas não é nada tão terrível que impeça de recomendar o jogo.

Inclusive analisar um jogo clássico como esse, que é tão simples mas interessante em termos de gameplay, é um ótimo exercício de game design. Vale a pena olhar com calma o level design e todos os elementos que fizeram essa série ser tão popular na sua época. Inclusive estou fazendo uma análise das situações únicas que esse jogo criou e pretendo postar aqui quando acabar. (espero que ainda esse ano…)

 

Se você nunca venceu o Bydo Empire quando era criança, está na hora de acabar com esse trauma!

Ah, vale lembrar que depois que o jogo acaba ele começa de novo mais difícil (loop 2) e ai fica absurdo… então talvez acabe com um trauma mas crie outro… Para o bem da sua saúde mental, ignore o loop 2, finalizar o 1 tá de bom tamanho.

Adoraria ver um novo R-Type nos consoles atuais, mas isso não irá acontecer pois a Irem está acabada e esse tipo de jogo faz muito tempo que está em declínio, pelo menos as grandes produções. Então o que resta é revisitar os antigos. Adeus R-Type! r-type-r-9a-arrow-head-model-kit-1-e1339590749712

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