Metal Gear Solid V: Ground Zeroes é um Metal Gear muito estranho. Seria uma introdução ou degustação do novo MGS V que deve sair ano que vem ou ainda mais no futuro. É como se a primeira fase do jogo fosse vendida separadamente, um prólogo que não estará no produto final. Mas a série sempre foi famosa por grande produções, por que fazer um jogo com uma fase só que dura menos de 2h?

Ao que tudo indica a resposta é simples, com o lançamento do PS4 no Japão, a Konami queria garantir alguns bons trocados e então teve essa ideia estranha (Kojima disse que ele queria permitir que os jogadores experimentassem logo o novo MGS, já que a versão completa levaria um bom tempo para finalizar, mas eu suspeito que isso tenha sido imposto pela Konami… de qualquer maneira ele está aproveitando esse playtest global e pedindo feedback sobre o jogo via twitter…).

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Então por que comprar e incentivar esse caça níquel?

Na verdade não é tão ruim assim. O jogo dura muito mais que 2h, pois além da missão principal tem outras, e muitos segredos para descobrir, troféus, etc.

 

E sendo bem sincero, é excelente!!! Joguei por mais de 17h!!!

 

Vale muito a pena, se pegar a versão de download do PS3, com custo de US$20,00. Para a nova geração o custo é maior, e a versão em caixa ainda mais caro. Já vi no shopping por mais de R$120,00… um completo absurdo.

 

Mesmo que não jogue para caçar todos os troféus (que necessita jogar quase 4x cada missão, fazendo objetivos diferentes), se somente passar por todas as missões, a quantidade de horas é totalmente compatível com outros jogos na faixa de US$20,00.

A missão principal dura aproximadamente 1:30h para quem não conhece o mapa e onde estão os objetivos, e as demais fases são bem mais rápidas. Jogando tudo uma vez deve dar 4h… (a última só destranca se colecionar alguns itens espalhados pela missão principal, e um deles está muito escondido, só vendo um guia para descobrir… Kojima fazendo as suas…)

O que me interessou neste jogo é a oportunidade de experimentar a nova Fox Engine no PS3, fiquei bem curioso se ela rodaria bem e mostraria os fantásticos gráficos que foram exibidos em vídeos antes do lançamento; além de ver as alterações de gameplay da série, que prometia pela primeira vez ser em mundo aberto.

Então vou comentar sobre esses e outros elementos:

 

  • Nova engine:

Realmente o visual prometido está lá, parece um jogo da nova geração rodando no PS3. Especialmente a fase principal que é noturna e na chuva, com o brilho das pedras, das capas do guardas, os efeitos de luz (que mais impressionam), é excelente. As outras missões são no mesmo cenário, porém em outros horários, de dia, com sol mais alto ou baixo (tudo amarelado), etc. Também essas missões começam em outros lados da fase, o que ajuda a dar a sensação que é um lugar diferente.

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O visual no geral é fantástico… mas o PS3 já é uma máquina bem velha e vários problemas acontecem. O frame rate (taxa de quadros por segundo) não é totalmente fluído em algumas partes, além dos objetos próximos ao jogador darem o clássico “pop up” saltando de uma resolução poligonal baixa para média e alta, de forma bem visível. Além disso as vegetações vão “acendendo” quando estão próximas da câmera. Mas o que incomoda mesmo nesse sentido é olhar na distância e ver uma torre de observação sem ninguém, e ai quando pega o binóculo e dá zoom os guardas que estão nessa torre “acendem” magicamente… Isso influencia negativamente no gameplay, pois na distância sempre fica a dúvida se tem alguém lá, até pegar o binóculo. groundzeroes03

Todas estas questões não parecem ser um problema na nova geração, onde o jogo roda com resolução mais alta de texturas e 60fps. O MGS V completo deve justificar a troca para o PS4 no futuro…

De qualquer maneira o visual ainda é ótimo no PS3 e é plenamente jogável apesar destes problemas. Algumas missões de dia quando passamos de helicóptero deixam a repetição das texturas mais aparentes e o jogo parece ser mais feio, talvez faltou um retoque na visão aérea, já que ela não existe na missão principal.

 

Making of da engine (com mocap até de cachorro):

 

  • Mundo aberto:

Não sou muito fã de mundo aberto pois isso costuma diluir o gameplay. Poder fazer o que quiser é bom, mas ter que navegar num cenário imenso geralmente mais incomoda do que ajuda. No único mapa deste jogo, o tamanho é de pequeno a médio, dá para atravessar correndo, e ainda tem jipes e blindados para pegar uma carona. Então achei muito bom. A missão principal (e alguns objetivos secundários de outras) envolvem resgatar prisioneiros e chamar um helicóptero em algum lugar calmo para despachá-los. 420558-metal-gear-solid-v-ground-zeroes

Por ser neste pequeno mundo aberto, muitas situações bizarras, engraçadas, trágicas, podem acontecer. Há possibilidade de distrair os guardas, atacar um por um sem fazer barulho, sair correndo atirando, chamar helicóptero no meio do caos e tentar salvar um prisioneiro abaixo de bala, roubar um blindado e sair atropelando e fuzilando todo mundo… tudo é possível. E o mais interessante é quando planeja fazer uma coisa e acaba tendo que fazer outra, se adaptando as situações inesperadas que acontecem. Acho que um MGS num mundo imenso como GTA seria insuportável, mas nesse cenário pequeno do Ground Zeroes ficou ótimo.MGSV-GZ-Screen-2_zpse6140c01

 

  • I.A.

A inteligência artificial dos guardas está muito boa no geral. Quando notam algum barulho ou vulto, pegam uma lanterna e vão investigar, se te enxergam acionam o alarme e chamam reforços, então rapidamente todos os soldados da área vem atrás de Snake, inclusive utilizando os veículos do cenário. A animação é bem fluída, o jeito que correm, se escondem atrás de objetos, sobem nas torres de observação, etc. O lado ruim é que rapidamente perdem o jogador… Pode ficar trocando tiros em um canto do cenário, se esconder alguns minutos e pronto, já não sabem onde está o alvo e baixa um nível de alerta… Mesmo se estiver em uma área de prisão, rodeado de cercas, é só ficar atrás de algum objeto sem ser visto, e mesmo sendo óbvio que o jogador continua no mesmo lugar, eles “perdem” o suspeito… Em termos de gameplay facilita, mas em realismo é esquisito.

 

  • Câmera e feedback

Kojima foi corajoso em cortar tudo de ruim que tinha nos antigos MGS e deixar os controles, câmeras, feedback dos guardas, de um jeito moderno e prático. O lado negativo é que não parece mais MGS, pois até o clássico inventário com listas no canto da tela e o codec foram removidos. Tirando esse fato saudosista, temos que reconhecer que ficou muito melhor.

Agora a câmera movimenta livremente, quando saca a arma surge a mira no centro como um FPS e permite mirar com precisão (ou até trocar para visão em primeira pessoa, enquanto a arma está na mão). Tem indicador de quando está próximo o suficiente para acertar e na distância precisa levar em consideração que a bala pode cair pelo trajeto, especialmente o dardo tranquilizante.

 

Mas o melhor mesmo é o indicador na tela quando um guarda nota um movimento. É uma mancha branca que de acordo com a orientação demonstra a direção de onde ele está, e a intensidade do brilho dá uma boa noção do quanto o guarda viu seu movimento, o quanto ele está desconfiado.

É um sistema muito simples e dá um feedback excelente para o jogador saber quando deve se esconder, de que lado está sendo observado, etc. Também tem o novo Reflex Mode, que é acionado quando um guarda te vê 100%, o jogo fica em câmera lenta e vira para direção do guarda, dando alguns segundos para mirar na cabeça e dar um tiro para coloca-lo para dormir ou matar, impedindo que toque o alarme e chame reforços. Quando isso é usado conta pontos negativos para a missão, podendo gerar um rank inferior no fim. Mas tudo é configurável, pode-se desligar todos estes elementos e nem ver a mira da arma, se quiser.

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  • Mapa e segunda tela

Agora não tem mais mini-map no canto da tela. Precisa usar o binóculo para observar o cenário e o mapa completo é mostrado de forma holográfica com um botão que também pode acessar mais informações da missão, porém isso não pausa o jogo… (o universo de MGS é curioso pois se passa nos anos 70/80, mas mistura fitas cassete com holografia, robôs gigantes…)Metal-Gear-Solid-V-Ground-Zeroes-Map

Mas o mini-map não faz falta pois podemos colocar um marcador de onde queremos ir e este marcador fica sempre visível, tirando a necessidade de consultar o mapa a todo momento. E quem tiver um tablet ou smartphone pode baixar um aplicativo que roda com o jogo e permite ter o mapa sempre aberto nessa segunda tela. Tem até um mini game de gerenciamento exclusivo, nem precisa do MGS para jogar. É uma pena isso não rodar no Vita (Sony perdendo a oportunidade de estimular mais o seu portátil).

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Quando se observa de perto um inimigo, seja pelo binóculo ou ao mirar nele, fica marcado com um brilho semelhante a uma espécie de raio-X permitindo vê-lo até por trás de paredes. Isso não é muito realista (lembra o modo raio-x dos últimos jogos do Batman) mas é muito bom para o gameplay. Seria como se Snake visse o guarda um vez então deduzisse onde ele está… Mais outro feedback que ajuda muito a tornar o jogo acessível (e ainda indica a distância que o guarda está).

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  • Kojima chutando o balde

Sobre a história (continuação direta de Peace Walker), parece que o Kojima está com vontade de testar os limites de até onde um jogo pode ir, sobre violência gráfica (explícita) e outros tipos de violência… Nas poucas cutscenes que o jogo apresenta, uma já foi censurada no Japão, para não mostrar com tantos detalhes o que acontece. É aquela cena da operação que muitos já viram… a nova engine permite um realismo muito superior que os jogos antigos e o Kojima resolveu detalhar todos os horrores que a sua história de politicagem e guerra contém.

Grande parte da história de fundo é contada por fitas cassete que estão espalhadas pelo cenário das várias missões, além de algumas que são entregues por certos personagens. Depois de coletar tudo o jogador entende melhor o que aconteceu e pode ouvir algumas coisas não muito agradáveis como seções de tortura… Ajuda a ter mais raiva do vilão e entender um pouco melhor do porque ele age assim… mas algumas das cenas de violência que só ouvimos são bem pesadas… envolvendo crianças e outros tipos de torturas e pressões psicológicas que podem ser fortes para os mais sensíveis… No cinema coisas parecidas já ocorreram, mas em jogos não é comum. Enfim, curioso para ver até onde isso irá no jogo completo.

 

Alguns estão repudiando estas cenas pois elas parecem ter sido feitas só para chocar, sem uma grande necessidade para a história. Independente dos motivos, acho ótimo o diretor ter liberdade de fazer o que quiser, um jogo não deveria ter censura assim como qualquer outra forma de arte. Se alguém ficar ofendido, tem o direito de reclamar, processar até, mas censura prévia é ridículo.

Ele até fez um bico no seu próprio jogo… mas não é tão discreto quanto Alfred Hitchcock…

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Resumindo: MGSV GZ é muito bom e vale a pena ser comprado se pagar um valor razoável, compatível com o tamanho curto da experiência. Ele é todo traduzido para o português e legendado. E vale dizer que a dublagem do Kiefer Sutherland está ótima, não senti falta do David Hayter.

 

Ansioso pelo MGS V completo!

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