Rain é o mais recente jogo “poético” da PSN. Conta a história de um menino invisível que só pode ser notado por sua silhueta na chuva. Ele tenta ajudar uma menina nesta mesma situação, fugindo de criaturas também invisíveis, na noite de uma cidade deserta.

 

A narrativa é feita com frases no meio do cenário, como se fosse um conto de fadas. Nesse sentido parece um filme mudo, os personagens não falam (pelo menos a gente não ouve), e o texto que aparece e desaparece em vários momentos vai narrando os acontecimentos.

O gameplay básico é composto de plataforma, puzzle (coisas simples como acionar alavancas, se esconder no lugar certo…), um pouco de exploração (quase nada) e stealth, já que só podemos fugir dos inimigos. Mas o grande foco é a ambientação, o clima, o sentimento, e não as mecânicas. Ou seja, o desafio é baixo, além de algumas mortes para descobrir o que se deve fazer, o jogador não terá grandes dificuldades de ir até o fim.

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O mais interessante é quando os personagens não estão na chuva, e ficam completamente invisíveis. Só tem como saber onde estão por causa de suas pegadas no chão, objetos que são empurrados quando passam, o respingo em poças de água, etc. Lembrando que até os inimigos são transparentes, e apesar de que eles não enxergam o jogador fora da chuva, podem continuar circulando pelo cenário. Desta forma uma das situações interessantes é quando dentro de um esgoto os inimigos e os dois personagens principais andam sobre a água corrente. Só observando os respingos dos pés o jogador precisa descobrir quem deve desviar (adversários), quem é a menina controlada pela IA, quem é o próprio jogador…

Outras mecânicas incluem chamar a atenção dos inimigos correndo em uma poça para fazer barulho, e depois andar pelo outro lado, se esconder onde não chove, etc. Existem também poças com lama e ai os pés dos personagens serão vistos mesmo fora da chuva, até que encontrem um local com água limpa para mergulhar e se lavar.

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Todo gameplay é baseado em movimentação, algumas plataformas e alavancas para acionar mecanismos simples, alem de fugir dos inimigos de várias formas. Algumas variações aqui e ali, mas no geral é isso. Apesar da originalidade, a ação é simples e um pouco repetitiva, poderia ser mais explorada e variada.

 

Mas o grande mérito de Rain é a ambientação. Os desenvolvedores queriam explorar o sentimento de uma criança perdida, assustada mas ainda curiosa em explorar um local desconhecido. O sentimento de solidão, curiosidade e medo é muito bem utilizado, com uma direção de arte de extremo bom gosto, usando cores frias e “desbotadas” para criar um mundo sombrio e solitário, porém ainda poético e não somente assustador como poderia ser. Mas o trabalho sonoro se destaca ainda mais, usando piano, acordeom, dentre outros instrumentos, dá uma sensação de filme francês antigo, sem falar do realce das emoções especialmente quando o menino ainda não conseguiu se reunir com a menina e está tentando chamar sua atenção, para ajudá-la.

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No fim há uma versão cantada da música “Clair de Lune” com a voz da cantora mirim Connie Talbot (12 anos), incrível a beleza da voz desta menina. Veja neste vídeo uma amostra das músicas de Rain.

Apesar do trabalho visual e sonoro de alto nível, a história e as mecânicas do jogo não vão até onde poderiam ir. Deu uma sensação de potencial não explorado. Especialmente perto do fim quando o cenário muda para algo mais bizarro, o meu interesse e curiosidade pela história aumentou bastante, pensei em várias possibilidades mais pesadas, fortes, drásticas, que o enredo poderia tomar; mas acabou sendo algo bem mais simples e não tão interessante quanto poderia imaginar. Ainda poético e emotivo, mas não ficou marcante quanto poderia ser. Não achei ruim, mas digamos pouco ambicioso. O objetivo era encantar e ir pelo caminho do poema, conto de fadas, então Rain conseguiu o que queria. Mas acho que poderia se tornar mais inesquecível e marcante se seguisse algum outro caminho mais “forte”.

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Apesar de Rain não ser tão emocional como Journey, não ter mecânicas tão criativas como Unfinished Swan ou metáforas tão fortes como Papo & Yo, é uma jornada muito interessante, caprichada no lado artístico e diferente de muitas produções banais que estão disponíveis por ai. Adorei cada minuto do jogo, me manteve interessado e até extasiado em alguns momentos, apesar da sensação de potencial não totalmente explorado ter permanecido. Um final mais simples do que o esperado e desafio baixo não abalaram minha grande simpatia pelo título e o recomendo a todos que queiram algo diferente, com foco mais poético, onde o personagem principal não fica matando dezenas de inimigos com uma arma gigante…

 

Acho que para ser perfeito poderia custar US$10,00 ao invés de US$15,00 pois tem duração de somente 3h, aproximadamente. Mas vale o investimento para incentivar a produção de jogos especiais como este. Ele tem o selo do PlayStation C.A.M.P, ou seja, a ideia foi submetida por um cidadão japonês (pessoa física fora da indústria de jogos) e então produzida por um estúdio tradicional.

 

Por fim um trailer do gameplay, (parece ser de uma demo, mas ela não foi disponibilizada), é justamente o início do jogo completo.

 

Deixe-se encharcar pela solidão e beleza de Rain!