Um jogo de tiro em terceira pessoa genérico, com armas genéricas, sistema de cobertura (como de gears of war) genérico, com um soldado genérico armado na capa, multiplayer genérico, singleplayer que dura só 6 horas… Por que iria jogar isso?Spec_Ops_The_Line_cover

Acabei encontrando um comentário de alguém que tinha jogado este título, em outra reportagem sobre algo que nem mais lembro o que era, e por indicação dele fui parar em uma matéria sobre o escritor do jogo. Lá ele conta os desafios que enfrentou por lidar com alguns temas morais e outras questões que poderiam ser reprovadas pelo publicador, mas por sorte recebeu apoio total para criar algo diferente. Este jogo foi feito pelo estúdio alemão Yager e publicado pela 2K.

Isso aumentou meu interesse, dei mais uma pesquisada e encontrei muita gente falando que a história do jogo é excelente. E ai achei isso:

Extra Credits – Season 5, Ep 1 (Parte 1 – sem spoilers)   (muito bom!)

 

Então resolvi conferir e valeu a pena!!!

Spec Ops: The Line deu um passo além na questão da narrativa de um jogo de guerra. É muito complicado tentar explicar porque ele é tão bom sem entregar nenhum spoiler… mas vou tentar.

O jogo meio que engana o jogador, ele começa como um shooter genérico, mas pouco tempo depois tudo parece estanho, o ambiente, os objetivos da missão, nada é como se espera e tudo vai ganhando uma nova visão, um novo peso. A história sai do banal atirar em tudo, todos são inimigos, e começa a misturar outros conceitos morais, psicológicos. O jogador percebe que esse jogo não será como COD, sempre correndo e atirando, e coisas bem sérias acontecem. Apesar da ação central ser o tiroteio, a ambientação é muito interessante, a forma como o cenário ajuda a contar a história, com pichações, eventos dinâmicos, corpos amontoados pelo chão e pendurados em postes; o mistério do que está realmente acontecendo te prende do início ao fim. (bom pacing!)

O mais interessante são as questões morais e até a quebra da quarta parede, algumas falas dos personagens são focadas não só para os outros personagens da história, mas também para o jogador… Algumas cenas e questões ficarão gravadas na sua cabeça, eu garanto…

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Não falei ainda nada de específico, evitando os spoilers, mas posso contar a base da história:

O cenário é Dubai, onde ocorreu um desastre climático – violentas tempestades de areia. Como a cidade foi feita no meio do deserto, com as tempestades ela ficou isolada completamente, parcialmente soterrada. Comunicação, veículos, nada é fácil entrar ou sair de lá, virou uma terra sem lei, quase desabitada, onde algumas pessoas conseguiram fugir antes da tragédia, mas outras não acharam que seria tão grave e acabaram presas lá. Um esquadrão de militares foi voluntário para resgatar os sobreviventes, porém eles desapareceram também. Algum tempo depois, somente um chamado gravado via rádio foi captado. Então para descobrir o que aconteceu e ajudar com o resgate, um grupo formado por 3 soldados são enviados. O jogador é um deles, além de dois outros companheiros (NPC) que lhe acompanham.

Chegando lá, logo no início do jogo, eles encontram um grupo de sobreviventes… porém eles estão armados e agressivos… e ai começam os conflitos… mas afinal não era uma missão de resgate? Se as pessoas que eu deveria resgatar estão me ameaçando eu devo contra atacar? Vou matar quem deveria defender?

E depois surgem soldados americanos, mas eles também não estão felizes em me ver… e ai a história vai ficando cada vez mais complexa e misteriosa, o jogador vai descobrindo a verdade junto com o personagem principal, e isso é incrivelmente imersivo e interessante.

A verdade é algo bem extremo… vale a pena a jornada para descobri-la.

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Até ai seria só um jogo com boa história, mas este título tem outras genialidades que o deixaram especial. Vou citar algumas, sendo genérico para não estragar nada…

 

  • Transformação do personagem: geralmente em qualquer jogo começamos e acabamos a campanha com o personagem igual, mesma roupa, mesma fisionomia (há exceções claro, mas é o padrão). Já este jogo reflete o crescimento e evolução do personagem de muitas formas. Conforme ele descobre a verdade e vai amadurecendo com os fatos que acontecem, sua relação com os outros NPC´s mudam (o tom da conversa), a textura do personagem vai sendo ajustada (ferimentos, expressão mais pesada, roupa mais suja e rasgada), a voz, animação de ataque próximo dos inimigos… tudo ajuda a refletir a grande transformação do personagem. Ele de fato acaba muito diferente do que começa, no lado psicológico e físico. Destaque para o trabalho de atuação de voz, o ator principal é o mesmo da série Uncharted.

 

  • Escolhas morais ingame, sem opção explícitas: alguns jogos pedem que o jogador faça uma escolha, como em Bioshock (aperta A para resgatar a menina, aperte B para extrair a criatura que dá mais bônus…), sendo uma opção binária, geralmente uma escolha claramente boa e outra ruim. Em Spec Ops tudo é deixado livre para o jogador fazer o que quiser. Por exemplo, numa parte especial o jogo sugere que preciso escolher qual personagem matar, posso atirar no 1 ou 2, mas como estou livre também posso tentar fugir da cena, ou atirar na pessoa que está me obrigando a isso, ou atirar para cima para assustar somente, enfim, fazer o que quiser tudo ingame, sem opções fixas de interface. Nem sempre tenho muita liberdade, mas nas partes que tenho, ficou muito natural o jogo não trancar (e ficar esperando a resposta da opção) e deixar que eu faça o que bem entender.

 

  • Telas de loading: um grave problema é o loading demorado, meio chato. Mas o jogo usou esse tempo de um jeito esperto, com dicas de gameplay (ex: recarregue a arma com frequência, etc) – mas isso todos jogos fazem; porém também usou frases de impacto que tem ligação com a história no momento (ex: quantos soldados americanos você matou hoje? – Já se sente um herói agora? – Matar por gosto próprio é assassinato, será punido. Matar pelo governo é um ato heróico, será condecorado…).   Sua cabeça fica pensando nisso…

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O jogo é uma crítica ao próprio gênero que ele é: Spec Ops: The Line não foi feito para ser divertido, é uma história pesada que questiona várias questões morais. E também questiona a indústria de jogos atual; por que é tão divertido matar? De onde veio essa diversão focada em morte? Sabemos que o jogador segue objetivos, ele quer só progredir, se o jogo diz que deve destruir tal inimigo, ele faz. Mas quem é realmente esse inimigo, ele merece morrer? Estamos só seguindo ordens cegamente? Cadê nosso senso crítico? Numa guerra é a mesma coisa, um soldado pode ser uma ótima pessoa, estar na sua visão lutando pelo seu país. Ele pode não ter noção da guerra por inteiro, nem saber o que seus generais fazem, mas ele luta porque é nisso que acredita, que deve ser o correto a fazer. Um soldado nazista pode estar lutando para defender o seu povo, e na visão dele é um homem de bem. Mas aos olhos de outros ele pode ser considerado um monstro. Então todos devem ser mortos sem questionar nada? Seguir ordens cegamente pode ser muito perigoso… o contexto pode ser diferente daquele que se imagina.

 

O jogo cria questões na sua cabeça como: um simulador de guerra deve ser divertido? Um filme de guerra certamente não será. A guerra não pode ser esquecida, para que não volte a se repetir, pois é uma das maiores atrocidades que os seres humanos podem fazer com seus semelhantes. Então criar um jogo de guerra onde tudo que corre é seu inimigo e deve ser morto de forma divertida, é o mais correto? Não seria mais maduro contar uma história séria que fixe nas nossas cabeças o que a guerra realmente é? (a maior irracionalidade que podemos cometer como espécie…) Este jogo não foi feito para ser divertido no sentido de te dar várias armas e pedir que você simplesmente atire em todo mundo e ganhe uma medalha no fim. Ele trata de coisas muito mais pesadas que abrem sua cabeça. Com isso questiona o padrão dos jogos atuais, onde a violência é algo banal para divertir, a costumeira “fome de poder adolescente…”. Mas a guerra não pode ser encarada só desta forma, está na hora de crescer. Se eu quero me divertir, rir, ter uma experiência relaxante, não vou ver um filme de guerra. O mesmo pode valer para os jogos. Sempre existirá os mais lights que transformarão tudo numa brincadeira infantil de polícia e ladrão, mas todos serem assim é uma afronta à nossa inteligência. A guerra é assunto sério, é hora dos jogos também enxergarem ela assim.

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Infelizmente o jogo não vendeu muito bem. Algumas pessoas reclamaram de parte dos controles (o botão de cobertura, correr e ataque corpo-a-corpo é o mesmo, isso pode atrapalhar) e do multiplayer sem muita graça (feito por outro estúdio contratado, a Yager queria focar só no singleplayer, mas por questões de necessidade de mercado o jogo precisava ter multiplay – e o resultado não empolgou).

Agora que passou algum tempo o pessoal está divulgando no boca a boca (como eu) e quem sabe ele continue vendendo e alcance melhores números no final de sua carreira. Em termos de narrativa e seriedade deve virar um cult…

 

De positivo posso citar os gráficos, gostei bastante, especialmente da luz avermelhada no deserto, além de efeitos dinâmicos legais como atirar em janelas e assistir uma onda de arreia entrar no prédio e soterrar os adversários. Claro que não tem cenários gigantes ou eventos caóticos como outros jogos, mas achei a produção muito boa.

I.A. dos inimigos também é interessante, eles tem o talento de jogar granadas sempre na hora errada… Outro recurso é a possibilidade de dar ordens de onde atacar para seus colegas NPC, e eles realmente fazem uma boa diferença.

 

O estúdio fez um DLC com missões co-op (2 pessoas) e lançou de graça! Boa!

O jogo está disponível para consoles (em versão disco e download) além do PC.

Obs: No momento que estou postando isto, está por R$11 no Steam! Aproveite! A promoção acaba em algumas horas.

 

Alguns artigos curtos e bons para ler: (livre de spoilers)

 

Carregado de spoilers, veja depois de jogar:

 

 

“Pela primeira vez um jogo com armas não quer que você seja o herói – quer que você se sinta terrível por tentar ser um” – IGN

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