A humanidade foi extinta. Os animais que sobraram lutam pela sobrevivência em uma versão pós-apocalíptica de Tóquio. Essa é a ideia central de Tokyo Jungle, um curioso título da Crispy´s (quem?) exclusivo para PS3. Este jogo foi lançado em disco no Japão, mas acabou virando um produto de download por US$15,00 na rede online da Sony (também disponível na loja brasileira).

Nasceu do projeto CAMP (Creator Audition Mash Up Project) da Sony – que aceita submissões de ideias inovadoras de jogos, de qualquer pessoa física (desde que você more no Japão…)

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Como funciona:

O cenário do jogo tem um tamanho médio, não é pequeno mas nem de longe chega a ser um mapa de GTA. É dividido por setores, como área comercial, bosque, trilho de trem, dentre outros, além de uma rede de esgoto subterrânea que permite atalhos.TokyoJungleMap

O jogo tem dois modos principais, um de sobrevivência, outro história. A história tem 14 capítulos, que contam como a humanidade desapareceu. Porém para destrancar os capítulos, precisa jogar o modo sobrevivência. Neste se escolhe um bicho e tenta sobreviver o maior tempo possível. Em cada jogada há 3 pen drives espalhados no mapa (que a humanidade deixou para trás), e quando forem pegos, um novo capítulo da história pode ser jogado. Além disso, no modo sobrevivência podem ser destrancados outros animais, itens, etc.

 

Cada bicho tem seus atributos de fome, energia, vida, defesa, ataque… O básico da sobrevivência é conseguir se alimentar, evitar os predadores e procriar.

Em cada setor do mapa, há alguns pontos para serem controlados, basta chegar lá e apertar um botão para o bicho dar uma cheirada (ou outra coisa) e marcar o território. Quando controlar todos os pontos, aparecem as fêmeas. Tem 3 tipos, as superiores que passam mais atributos do pai para as crias (e tem mais chance de gerar muitos filhotes), porém só se interessam em animais experientes, as médias que aceitam animais não tão experientes, mas a herança de características é pior, e por fim as desesperadas, que aceitam qualquer um, mas passam poucos atributos, geram poucos filhos e ainda tem pulgas… (que passam para o parceiro!). O animal com pulgas precisa parar e se coçar de vez em quando, o que pode ser fatal se estiver fugindo de um predador. Mas se andar na água ou usar shampoo anti-pulgas (?!) consegue eliminá-las. O nível de experiência dos bichos é de acordo com a quantidade de comida que eles comem, quanto mais calorias, mais evolui, com rank de novato, experiente e chefe.

Em alguns momentos podem aparecer presentes no cenário, com alguma coisa aleatória dentro, desde remédios para melhorar a vida, até acessórios para cabeça, corpo, patas, que mudam os atributos quando vestidos. Lembrando que é um jogo japonês, então muita bizarrice está envolvida… por exemplo, um dos itens que mais aumenta o atributo de ataque é o … biquíni! Óbvio, faz todo sentido… Imagine um urso com visual realista, mas vestindo um chapéu, botas que parecem patas de gato e biquíni…

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Sim, isto é uma vaca colegial…

A história do jogo que tenta explicar como a humanidade sumiu também é muito forçada, algo que só japonês poderia criar… é uma ficção científica com outras bizarrices no meio. Essa mistura de realidade com humor é que faz o jogo ser especial. Aliás, no início dele sempre mostra um aviso que é uma história de ficção, como se alguém tivesse dúvida. Afinal um urso de biquíni é muito real mesmo…

 

Enfim, voltando ao modo sobrevivência, que é a maior parte do jogo, lá precisamos ficar vivo pelo maior tempo possível (tem co-op local), para somar pontos, destrancar outros bichos, itens e novas parte da história. Como o cenário é sempre o mesmo, o jogo usou um grande sistema de grinding (obrigar o jogador a repetir muitas vezes tarefas semelhantes, recompensando com itens aleatórios, melhoramento de atributos, etc…) para fazer ele durar mais. E deu certo! Eu joguei Tokyo Jungle por mais de um mês… e ainda tinha mais conteúdo para destrancar se quisesse continuar, mas no fim a quantidade de grinding cansou… ficou abusiva demais. Deixa eu explicar direito:

 

Ao entrar no modo sobrevivência, o jogo sorteia uma lista de objetivos a serem cumpridos. Cada um tem uma condição para ativar, executar e expirar. Ex: A partir do momento que atingir 5 anos de idade, deve abater 15 animais, antes que alcance 10 anos.

A idade vai aumentando sozinha em um intervalo de tempo. Se não me engano, a cada 3 minutos de jogo o animal completa mais um ano de vida. Se acasalar e tiver filhotes, a idade continua, ou seja, a contagem é de toda a geração de pais e filhos. Um dos achievements mais difíceis e demorados é conseguir chegar aos 100 anos de vida, isso porque é realmente um modo de sobrevivência, a morte é permanente! O sistema de “save” funciona assim: começa o jogo, se sair fora a qualquer momento, perde tudo, até partes da história, pontos, itens, qualquer coisa que tinha conseguido no meio do jogo. Quando conquista um território a habilita o “ninho” do local (o lugar para acasalar) ai então se quiser pode sair do jogo e ele é salvo. Porém é um save temporário. Quando voltar a jogar o save é imediatamente apagado. É só usa forma de poder ir dormir e continuar outro dia… Carregou o arquivo, ele já era. Isso é feito para valorizar a vida do bicho, pois no momento que morreu, não tem volta. Se estava jogando muito bem, só faltava um objetivo para conquistar um achievement, e então encontra numa esquina um tigre que lhe trucida em dois segundos… adeus. Se tiver outro filhote ingame (irmão seu) passa a controlar ele, caso contrário, morreu. Não tem como carregar save antigo e tentar de novo, único jeito é começar outra jogada de sobrevivência. A única coisa que vai aumentando são os atributos ganhos de cada filhote, fica acumulado para sempre naquele animal. Ex: estou com o lobo geração 15, quando começo um novo jogo de sobrevivência, inicio com os atributos acumulados de todos os filhotes anteriores.large

Depois de morto é contado os pontos de sobrevivência que alcançou (por ter cumprido objetivos, dentre outras ações) destrancando novos bichos para selecionar (se fez o objetivo que permitia isso) e habilitando os itens que conseguiu para compra na loja (os itens vão se desgastando quando usados, precisa comprar mais depois).

Estes pontos de sobrevivência vão acumulando, eles servem como pontuação para ficar no rank global e podem ser usados para comprar novos bichos ou itens. Ai é que mora o grinding mais terrível… o jogo começa só com um cachorro pequeno (carnívoro) e um veado (herbívoro) para jogar. Todos os outros animais precisam ser destrancados cumprindo objetivos, e depois comprados usando pontos de sobrevivência. Há uma sequência específica de bichos que podem destrancar outros, além de alguns que só podem ser comprados pela PSN por 1 dólar cada. Então com esse sistema de grinding o jogo lhe obriga a jogar o modo sobrevivência muitas vezes. Depois que destrancar e jogar todo o modo história, há os achievements que estimulam jogar mais e, claro, a vontade de destrancar todos os bichos. Como cada um tem um conjunto específico de atributos, e sempre que entra no jogo os objetivos são sorteados, (além de outros eventos dinâmicos ingame, itens que podem surgir) o jogo sempre fica com uma cara de novo, sendo divertido jogar inúmeras vezes (quase) a mesma coisa.

 

Feedback eficiente

Uma coisa que chama a atenção é o sistema de feedback, muito eficiente. No topo da tela tem um marcador que anda lentamente mostrando a idade atual do bicho e quanto falta para mudar. Na esquerda os medidores de vida, fome, energia (que permite dar dash). Logo abaixo ícones que representam os objetivos atuais ativos. Na base da tela um minimap muito útil para ver onde estão animais próximos, vegetais (comida para os herbívoros), pontos de território, etc. No canto direito mostra o rank atual do bicho referente a quantidade de caloria que ingeriu. A todo momento aparece na tela informações como troca de objetivos, contagem de pontos, notificações de parabéns por ter trocado de geração, etc… E se precisar ver a lista completa de todos os objetivos (até os não ativos ainda) ou o mapa completo, é só apertar start. A interface viva não deixa o jogo parado por muito tempo, nem o jogador perdido, gerando uma grande sensação de progresso e estimulando a jogar por muito mais tempo.

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Apesar da imagem acima, toda interface é inglês (ou português de Portugal)

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Controles

O jogo é muito simples de controlar, tem um botão de ataque, outro de dash (salto de esquiva – muito útil) que gasta energia (mas ela recupera sozinha alguns segundos depois), outro para interações como marcar ponto de controle ou comer, mais um ataque letal (bote rápido) que só funciona se acionar na hora certa, em um animal do mesmo tamanho, menor, ou pouco maior. Último botão é para trocar o comportamento dos outros filhotes (seus irmãos, que te acompanham): se for carnívoro, manda eles atacarem quem estiver perto, se for herbívoro, manda um deles se fingir de morto, servindo como sacrifício para fugir de algum predador.

O sistema de ataque leva bastante em consideração o lado que o ataque é feito (a vítima deve ser pega despercebida), e a grama alta no jogo serve para esconder os animais. Então em muitas partes deve ser usado stealth. No modo história isso é ainda mais importante, até com uma hilária homenagem à MGS…

 

Situações inesperadas bizarras

O legal de Tokyo Jungle é que o modo de sobrevivência é um sandbox, e muitas situações absurdas, engraçadas, trágicas, podem ocorrer. Também a quantidade de comida disponível em cada setor do mapa é sorteada no início do jogo, e a cada nova geração que nasce (também tem um ciclo de dia e noite). Além disso, pode acontecer chuva, aumentar toxidade (se for alta começa a perder vida imediatamente, tem que sair dali rápido ou é morte certa), e por ai vai.

Por exemplo, estava passando fome e na área por onde andava não tinha nenhuma comida. Corria em busca de algum bicho para matar e devorar mas nada mostrava no minimap. Até que finalmente um ponto verde apareceu (indicando um animal), corri para lá e encontrei uma galinha sozinha, era a solução dos meus problemas! Mas antes que pudesse dar um bote fatal um leão veio correndo e acabou com ela… e ai a situação mudou de figura…

Outra vez estava andando e encontrei uma vaca. Esse bicho significa muita carne e nenhum problema pois é herbívoro, certo? Não no mundo estranho deste jogo. Estava com um cachorro não muito grande, imaginei que no máximo a vaca iria fugir se não morresse do meu ataque. Mas assim que fui pra cima o bicho se virou com uma agilidade ninja e com cabeçadas e coice acabou com minha vida em instantes! Aprendi a ter muito respeito por ela…

 

A quantidade de bichos é bem grande, tem cachorro (vários tipos), cavalo, urso, gato, hipopótamo, avestruz, búfalo, veado, hiena, zebra, canguru, chipanzé, porco-espinho, tigre, leão, pantera, elefante, um tipo pequeno de dinossauro, ovelha, cachorro-robô (jogo japonês, lembra?), jacaré (DLC), dentre  outros.

Tem até o pinto amarelo; quase uma piada sobreviver com ele. Depois de conquistar um território ele dorme no ninho e acorda como galo… então pode acasalar e gerar outros pintos, que por sua vez repetem o ciclo. Só vale a pena jogar com ele para destrancar o próximo animal da fila… ou se você gosta de um desafio absurdo…

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Vale a pena?

Sim! Por US$15 este jogo é ótimo. Tem muito conteúdo e uma mistura interessante de habilidade, sorte, estratégia e grinding. Além do humor bizarro e todas as possibilidades que um sandbox permite.

No início não gostei muito, fiquei sem conseguir destrancar novos animais ou partes da história por não entender direito o sistema de objetivos, e ainda o sistema de “save” estranho (só explica no manual do jogo que é acessado apertando o botão HOME no controle – grande falha não explicar isso ingame). Os primeiros bichos para destrancar necessitam que vários objetivos sejam cumpridos, mas depois fica bem mais fácil, as exigências baixam bastante. Passado esta estranheza inicial, quando entendi exatamente como tudo funcionava, adorei o jogo e viciei nele por muito tempo.

Somente no fim, os últimos animais tem um alto valor de pontos de sobrevivência para destrancar e ai cansa ter que jogar tudo de novo muitas vezes até conseguir. Mas até lá a jornada vale a pena.

O ponto negativo é o grinding que algumas pessoas podem não curtir muito (mas pode focar na história, achievements e cair fora do jogo) e o visual, que não é nada demais. De qualquer maneira os bichos são bem modelados e animados,somente algumas texturas são um pouco feias.

Resumindo, uma experiência ótima pelo preço pedido, recomendo bastante para quem quer algo diferente. Está na lista dos 10 mais vendidos na PSN.

Darwin ficaria orgulhoso e ofendido ao mesmo tempo…