Depois de alguns meses de trabalho, finalmente posso divulgar meu novo projeto pessoal. Não se trata de um jogo, mas sim de um sistema para criar ideias de jogos, além de ajudar a polir ideias já existentes.

Antes de explicar como funciona, preciso dizer quais foram minhas inspirações, para que tudo faça (algum) sentido.

 

Inspiração 1: The Art of Game Design a Deck of Lenses

O livro de Jesse Schell, The Art of Game Design, já é um clássico. Ganhou prêmio de melhor livro da área em 2009, e até já saiu versão traduzida no Brasil. Ele usa o conceito de lentes, que seriam diferentes perspectivas de análise sobre o design. Por exemplo, lente do personagem pergunta coisas como: quais são os personagens do seu jogo, como eles se relacionam, quais seus objetivos, etc… A lente da interface pergunta se sua interface é limpa, intuitiva, etc. E por ai vai. Cada lente lhe faz pensar, analisar e melhorar algum elemento do design do jogo. Existem 100 lentes cobrindo todos os aspectos possíveis de criação. Vai deste os fundamentos do gameplay até questões de mercado, passando por história, tecnologia, balanceamento, arte, e tudo mais que se possa imaginar.

 

Além do livro, o autor criou um baralho (Deck of Lenses – vendido à parte) onde cada carta representa uma lente do livro, com o mesmo conceito e questões, mas com uma ilustração única (parecendo um baralho de Magic). A informação não é nova para quem leu o livro, mas possuir as lentes na mão, em forma de carta, tem suas vantagens. Você pode embaralhar, distribuir para sua equipe, onde cada um decide qual lente tem ligação com o projeto em questão ou não, e depois todos discutem melhorias. Ou se está fazendo tudo sozinho, pode olhar uma a uma e a partir das questões ir refinando o design. Poderia também fazer isso só com o livro, mas usar as cartas deixa tudo mais prático e divertido.

(Obs: foi lançado também para iOS (grátis no momento) e Android)

deck_of_lenses

Vantagens deste sistema:

  • Realmente o Deck of Lenses tem uma boa chance de te ajudar a melhorar o design do seu projeto.

Desvantagens:

  • Algumas lentes são muito abstratas e podem criar mais perguntas do que respostas… E há outras meio forçadas, dá a impressão que o autor deu uma “esticada” para conseguir chegar em 100 lentes.
  • O sistema só funciona se você já tem uma ideia, por mais simples que seja, para sair do chão. Se quiser criar um conceito do zero usando só as lentes, dificilmente irá conseguir.

 

 

Inspiração 2: The Metagame

Na GDC de 2011, um grupo de designers criou um jogo simples de carta chamado The Metagame, com objetivo de valorizar a discussão e cultura sobre os jogos.

Em cada baralho há dois tipos de carta: uma de Jogo, que descreve um jogo com seus detalhes, outra Comparação, que pergunta algo. Você desafia outro jogador apresentando uma carta Jogo e uma Comparação, e o adversário deve apresentar outra carta Jogo que responde a questão.

 

Por ex: alguém pode te desafiar com uma carta do Braid e uma carta que pergunta: “Qual o jogo mais profundo?”. Você deve então procurar no seu baralho algum jogo que seria uma boa resposta.

Suponho que escolha, digamos, Psychonauts… Então cada jogador tem 2 minutos para argumentar, dizer porque seu jogo é o melhor sobre a questão apresentada.

Imagine as possíveis discussões sobre isso… as cartas Jogo abordam várias produções indies que irão testar sua cultura gamer ao extremo, e as Comparações podem chegar a coisas do nível: “Qual jogo criou um subcultura mais intensa?”…

Depois de cada um defender sua opinião, quem estiver ao redor assistindo, vota e escolhe o vencedor. E este ganha uma carta aleatória do baralho do outro jogador (este é uma forma de jogar, existem variações).

The Metagame demands an incredible amount of gaming knowledge, but the payoff is worthwhile

Isso começou como um teste na GDC, os participantes ganhavam algumas cartas e iam jogando. E no fim houve um enorme campeonato valendo prêmios reais.

Claro que a idéia fez um enorme sucesso e acabou virando um produto de verdade (financiado via crowdsourcing). Eles vendem um baralho (vou chamar de deck de agora em diante) principal, além de outro de expansão. Infelizmente não aceitam encomendas internacionais ainda, mas estão resolvendo isso.

Vejam que idéia simples e divertida, além de ser educativa e inspiradora, afinal comparar jogos absurdamente diferentes pode abrir a sua mente à ideias ainda não exploradas.

Imagine debater se Scribblenauts é mais trágico do que VVVVVV, ou se Sonic é mais sexy do que Counter-Strike (!?).

 

Site do projeto no Kickstarter.

Site oficial (agora já estão fazendo outros decks que não são sobre videogame)

 

Vantagem:

  • Permitir mais cultura sobre jogos, discutir questões estranhas comparando produções completamente diferentes. Abrir a cabeça para questionamentos não comuns. (ex: quem conta uma melhor história: Heavy Rain ou ICO? – essa eu inventei, não sei se tem no deck, mas seria uma boa questão 🙂 )

Desvantagem:

  • Só aumenta a cultura e incentiva pensar “fora da casinha”, mas não é voltado para criação de uma idéia original (game design).

 

 

Inspiração 3: A bagunça dos estilos…

Os estilos clássicos de jogos são realmente uma bagunça.

Quais são os mais conhecidos? FPS, RTS, Puzzle, Adventure, RPG, etc…

Mas uns são relativos ao foco do jogo, outros a posição de câmera… Hoje em dia temos jogos FPS com opção de ver em terceira pessoa e vice-versa… Também temos jogos com muita ação, mas que se importam bastante com a história (conhecido como os action-adventures)… E praticamente todo jogo conta com alguns puzzles espalhados em algumas fases.

Há RPG em primeira pessoa que pode confundir com um FPS (especialmente quando usam armas ou muita magia). Há RTS com tanto detalhamento visual e câmera próxima que parece um TPS (shooter em terceira pessoa). Há jogos com elementos de plataforma e tiro que ninguém sabe se é um shooter ou plataforma… E o que seria Pac-Man? Ação? Puzzle? Survival Horror? (já que estamos sempre em desvantagem fugindo de monstros 🙂 ). Muitos sites dizem que ele é do estilo labirinto. Mas isso é um estilo clássico reconhecido?

 

Afinal os estilos deveriam se basear na forma que vemos o jogo, como interagimos com ele, qual o foco do gameplay ou como? Veja GTA, é um título que permite fazer muitas coisas, tantas coisas que muitos sites chamam ele de “ação” quando fala do estilo – uma definição super genérica. Em GTA temos corrida de carro, tiroteio em terceira pessoa, opções de fazer o que quiser (sandbox – mundo aberto), além das missões principais para seguir a história, e por ai vai. Então ele seria um sandbox, adventure, TPS, com corrida…

 

E pense no Batman Arkham City… que estilo seria?

  • Há uma história bem contada como um adventure.
  • Há evolução do personagem (comprar combos, upgrade de itens) como num RPG.
  • Há missões opcionais e principais (quests) como num RPG.
  • Há puzzles (do Charada).
  • Há luta corpo a corpo contra vários inimigos ao mesmo tempo, como num Beat´em up.
  • Há muitos elementos e opções de furtividade (stealth), afinal o herói não tem arma letal.

Então o estilo correto seria um action-adventure-puzzle-RPG-stealth-beat´em up ??

 

 

Inspiração 4: Qual o jeito mais prático de criar uma ideia de jogo?

A forma mais clássica é: O meu jogo é “citar um gênero ou jogo conhecido” mas com “citar algo não comum a este estilo”.

Exs:

  • O meu jogo é plataforma com puzzle e tiro.
  • O meu jogo é um Katamari Damaci com portais dimensionais.
  • O meu jogo é como GTA só que no espaço.
  • O meu jogo é um RPG em turnos com viagem no tempo.
  • O meu jogo é como Tetris, mas tem itens especiais e multiplayer.

E por ai vai. Muita gente tem idéias misturando estilos, pegando fórmulas conhecidas e adicionando algo diferente.

E parece que isso funciona com os desenvolvedores tradicionais também, afinal os últimos jogos do Batman são uma salada de estilos, elementos de gêneros diferentes que se encaixaram e criam uma experiência nova.

(Viram o God of War Ascension? É a mesma coisa de sempre, mas tem um sistema de “retroceder” alguns objetos destruídos, além de multiplayer… )

 

Misturando tudo: Will it blend?

Então a minha ideia é muito simples: fazer um sistema que permita a mistura de características de estilos diferentes em um conceito só. Queria fazer algo prático e não tão filosófico como o Deck of Lenses. Que alguém pudesse usar e ter alguma ideia (uma semente) para sair do zero. Ou pelo menos alguma inspiração que ajude a criar um conceito novo.

Pensei em criar um deck de cartas, onde cada uma representa um estilo de jogo e contém características clássicas e fundamentais deste estilo. O usuário poderia olhar cada carta, escolher as que mais lhe agrada e algumas características de cada uma, anotando tudo numa lista geral. Ao fim do processo estaria com uma salada de elementos, que poderia editar, limpar, refinar até chegar num conceito interessante. Isso claro seria uma forma de criar a partir de mecânicas e não da experiência de jogo, o sentimento que ele busca atingir. Mas é um jeito mais prático, fácil e direto de começar o processo.

Talvez esta escolha poderia ser aleatória, para o resultado ser o mais imprevisível e bizarro possível. Então achei que 6 características por carta seria um bom número, poderia rolar um dado para escolher alguma(s).

 

Enfim, fiz um resumo dos estilos clássicos, anotei os elementos mais fundamentais de cada, cuidando para que eles fossem misturáveis (não escrever algo que fora do contexto perderia o sentido) e sorteei alguns usando um dado. O resultado ficou estranho, claro que não surgiu um conceito de jogo ai, mas a estranheza poderia levar a ele.

A idéia deste sistema ficou na minha cabeça, será que é útil ou inútil? Pelo menos faz pensar em como encaixar mecânicas que aparentemente não tem ligação, e com alguma boa vontade e esforço, pode levar a ideias diferentes que não viriam de outra forma.

  • Será que é possível fazer um jogo de corrida com stealth?
  • Um tower defense com esporte?
  • Um survival horror educacional?
  • Um RTS com MMO? MMORTS? Ups, este já existe!

 

Claro que a melhor forma de fazer isso é com um deck virtual, fazer uma aplicação que carregue as cartas e permita escolher de forma aleatória ou manual qualquer elemento.

E já que faria isso, por que não criar outros decks úteis? Quem sabe um de desafios, para o game designer corajoso? Ex: imagine adaptar a sua ideia para um jogo não violento, sem combate direto? Ou que funcione usando só um botão? E ai, se vira nessa!

Também poderia ser útil criar um deck que ajude a polir um design já existente, da mesma forma que as lentes do Deck of Lenses (mas sendo mais prático e pulando as abstrações que não ajudam muito).

 

Então foi o que fiz, uma aplicação que carrega um deck de estilos, um de aspectos gerais (para polir o design) e outro de desafios. Cada carta possui características que podem ser transferidas para uma lista geral (separado por deck) e o resultado depois de filtrado pelo usuário, pode ser exportado para um arquivo txt, que serviria como base para um concept ou design doc.

Recursos principais do sistema:

  • Ver as cartas em uma ou duas linhas na tela;
  • Embaralhar;
  • Selecionar características de cada carta, também podendo excluir da lista geral;
  • Auto seletor – permitindo definir um intervalo de cartas e características para escolher aleatoriamente;
  • Exportar todos os dados para arquivo txt;
  • Telas de ajuda explicando as funções e os atalhos de teclado.

GGVD_screenshot

Formas de usar:

  • Manual: passe por cada carta, escolha algumas que gosta, que tem afinidade com o estilo, então escolha características dentro de cada uma. Depois filtre o resultado e exporte para discutir com o resto da equipe (se existir).
  • Aleatória: deixe o sistema escolher por você e filtre o resultado.
  • Misto: escolha manualmente e acrescente mais elementos de forma aleatória (ou vice-versa), filtrando o resultado.
  • Quando tiver um rascunho mais trabalhado da ideia, passe para o deck de aspectos gerais, veja cada carta. Seu design responde as questões sem problemas? Há questões em aberto? Selecione o que quiser e exporte os dados para discutir com sua equipe e encontrar as melhores soluções possíveis.
  • Se sente corajoso? Adote alguma carta de desafio e adapte o design para ela funcionar!

Crie sua forma de usar o sistema, experimente e veja como funciona melhor para você!

 

Customização total

Outra coisa importante que procurei fazer é deixar os dados totalmente abertos a customização. Talvez você possa ter achado interessante o conceito de misturar elementos diferentes, mas não gostou das cartas que fiz (usei só os estilos clássicos e não todos os sub-estilos possíveis). Ou ao invés de estilos gostaria de usar outros tipos de mecânicas organizadas de outra forma (usar aquele seu antigo arquivo de ideias nunca utilizadas), ou sentimentos, ou qualquer outra coisa. Nesse caso é só editar o bando de dados a vontade. São 3 arquivos txt, um para cada deck. É muito fácil incluir, excluir, editar qualquer carta.

Basta seguir esta regra simples: cada carta são 8 linhas.

deck_estilos

  • Linha 1: Título da carta (se precisar de quebra de linha entre as palavras use # )
  • Linha 2: Título da carta (por extenso) na ficha de características
  • Linha 3 até 8: São as 6 características da carta (as que podem ser selecionadas)

(Procure manter o marcador “bola” antes das características, para o alinhamento ficar bom)

Caso não quiser usar todas as 6, é só deixar linhas em branco no lugar.

 

Se estiver editando os dados e quiser reiniciar o sistema para ver o texto atualizado, sem precisar fechar e abrir tudo, use F12 (a tela de ajuda dentro da aplicação mostra os outros atalhos).

 

Feedback é essencial

Gostaria da opinião de vocês sobre a utilidade disso, sugestões, ideias de cartas, enfim, toda forma de feedback para que melhore o sistema e seja realmente útil. Ou se não for útil me avisem também 🙂 .

Quem sabe quando for participar de uma competição rápida de desenvolvimento e precisar de uma idéia diferente (para ontem), este sistema colabore. Talvez ele não crie algo totalmente aproveitável, mas a discussão sobre as questões que irão surgir pode levar ao caminho de algo interessante… nunca se sabe. A idéia é ser uma ferramenta de game design, veremos se vai funcionar ou não…

Da semente da ideia até o jogo rodando, há um longo caminho a percorrer, mas sem a semente, nada acontece.

Divirta-se criando!

 

Download – Game Genesis Virtual Deck v1.0

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