Obs: “Como este texto não tem muitas figuras e é mais científico, estou oferecendo um achievement para quem lê-lo até o fim. Este é o único lugar no mundo que oferece achievement em um blog🙂 ! Alguém chame o Guiness!”

 

Apesar do título exótico, o conteúdo do artigo abaixo não é muita novidade para quem já leu o livro Theory of Fun (que eu recomendo). Pois foi justamente no blog do autor deste livro que encontrei outro blog sobre neurociência e suas aplicações em jogos. O artigo original é este; aqui procurei reunir as informações mais interessantes.

(alguns termos técnicos que não sei como seriam em português deixei sem tradução)

 

 

Por que você joga?

Seja qual for a razão que faz você gostar de jogos digitais, há uma parte específica do seu cérebro por trás disso.

 

Já faz muito tempo que gamedesigners descobriram como criar sistemas de recompensa em jogos (ex: melhorar os atributos de um personagem em RPG), que irão manter os jogadores interessados e viciados enquanto jogam. Ou então criar desafios (a curto ou médio prazo) para os jogadores superarem, produzindo o mesmo padrão.

 

Estes sistemas de recompensa funcionam porque quando vencemos ou alcançamos algo, o centro do prazer no cérebro (nucleus accumbens – veja na figura) lança um neurotransmissor chamado dopamina, que é quimicamente similar a cocaína.

 

Obs:  “É isso mesmo, cocaína! Sabe aquela vontade louca de jogar algo depois de ficar muito tempo sem conseguir jogar nada? Pois é vício puro para o cérebro, assim como vício em drogas pesadas. Ou seja, o gamedesigner estaria produzindo drogas em formas de entretenimento, estaria viciando o jogador a ter sempre mais e mais prazer pela recompensa. Então ele pode ser considerado um traficante!🙂 “

cerebro

Mas pesquisas recentes das funções cognitivas, usando ressonância magnética, mostraram que estes não são as únicas formas de enganar o centro do prazer – e de fato, está parecendo que seja qual for o aspecto dos jogos que você gosta, o centro do prazer é sempre o responsável pelo seu divertimento.

 

Imagine que você é um jogador que não gosta de ficar dependente do sistema de recompensa que os RPGs e MMORPGs esperam que seus jogadores sigam; ao invés você gosta de ver os incríveis cenários e encontrar coisas surpreendentes. Certos pesquisadores do cérebro realizaram ressonâncias em pessoas observando diferentes cenas e descobriram um mecanismo neurológico para o interesse (ou curiosidade) envolvendo o córtex visual, uma parte do cérebro onde a memória é ordenada conhecido como a área de associação (hippocampus), e um neutransmissor chamado endorfina, que é quimicamente similar ao ópio.

 

Obs: “Veja, mais droga ai! Nossos cérebros são bem viciados, hein?”

 

Surpreendentemente, a pesquisa descobriu que este mecanismo de interesse também dependia do centro do prazer para criar a sensação de recompensa – se você está motivado pela exploração e curiosidade, sua experiência de prazer vem da liberação de dopamina – exatamente como acontece com o sistema de upgrade em RPGs.

 

Há pelo menos seis diferentes formas que o jogador pode enganar o centro do prazer do cérebro e com isso ter satisfação em jogar algo:

 

1 – A recompensa da conquista é a liberação de dopamina do centro do prazer – esta é a forma mais básica de gostar de um jogo, e muito jogadores respondem fortemente a este padrão, enquanto outros podem gostar se o jogo também satisfazer suas necessidades de outras formas.

 

2- Há o mecanismo de interesse que é responsável do porquê pessoas ficam interessadas em exploração e outras expressões de curiosidade. A maior recompensa neste aspecto é a admiração – o sentimento de ficar maravilhado com algo, ficar de boca aberta, quando vê algo diferente ou incrível. Admiração está provavelmente ligada a uma grande carga de endorfina, que por conseqüência significa um grande estímulo ao centro do prazer.

 

3 – O meio hardcore clássico de jogar é ser desafiado contra inimigos ou situações muito difíceis, e lutar para vencê-los. Característico a este aspecto é a emoção que um jogador sente quando conquista a vistoria. É o momento que faz você socar o ar, levantar os braços ou gritar quando finalmente vence. Isto é o seu corpo respondendo a uma grande quantidade de dopamina do centro de prazer, sob condições específicas montadas pela batalha exaustiva que você lutou para atingir este objetivo. Porém enquanto alguns jogadores gostam desde alto desafio, que pode gerar muita frustração e irritação, a maioria dos jogadores pesquisados odeia sentir esta irritação e evita jogos que criem este sentimento.

Obs: “Quem passou por Bark at The Moon do Guitar Hero no expert pela primeira vez, sabe o que é isso…”


4 – Outra forma de diversão que os jogos podem gerar é o estímulo da excitação (liberação de adrenalina), como por exemplo: alta velocidade (Burnout, Need for Speed), altura, vertigem (plataforma, Mario), pressão de tempo (Tetris, Dinner Dash), ligação de elementos encadeados  (DDR, Guitar Hero), medo e sobrevivência (Resident Evil, Silent Hill), dano ou “travessuras” (GTA, modo crash de Burnout).

Este sentimento de excitação é algo que a maioria das pessoas gostam (8 entre 10 jogadores pesquisados relaram como importante), além de fazer com que o centro do prazer crie uma forte sensação de recompensa, porém não tão forte como vencer desafios difíceis.

 

5 – Outra forma de enganar o centro do prazer está relacionado com jogos difíceis, mas que exigem estratégias ou a resolução de puzzles. Há uma parte do córtex frontal do cérebro – o centro de decisão (orbito-frontal cortex) que está fortemente ligado ao centro do prazer. Nossos cérebros são configurados para achar que tomar boas decisões é realmente recompensador, e o quanto for mais difícil for o puzzle, maior a recompensa. Desta forma, jogos que apresentam puzzles difíceis podem ser intensamente recompensadores para os jogadores que tenham as habilidades (e paciência) para vencê-los. Entretanto, estes jogadores não são mais a maioria do público de jogos, por esta razão o declínio do gênero de aventura e puzzles.

 

Obs: “O gênero aventura voltou a ficar um pouco mais na moda ultimamente, além de ótimos puzzles principalmente para portáteis. De qualquer forma é muito mais restrito do que os jogos de ação e esporte.”

 

 

6 – Finalmente, o prazer dos jogos também pode ser derivado em jogar com pessoas em que confiamos – nossos amigos, ou até mesmo com estranhos que formaram uma ligação temporária, como em grupos de MMORPGs.  Estes tipos de jogos ativam uma parte do cérebro, o centro social (ipotalamus), que libera um neurotransmissor chamado oxytocin. Na teoria todos apreciam os sentimentos que isto produz, mas algumas pessoas introvertidas lutam para vencer seu medo ou desprezo por outras pessoas para ter este sentimento. Um grupo de cientistas mostrou que oxytocin e dopamina (a química da recompensa) são intimamente ligados. Parece que o jogador que gosta de interagir com outros, também está recebendo sua diversão através do centro do prazer.

 

Estes seis mecanismos representam essencialmente todas as formas diferentes que os jogadores podem encontrar divertimento em jogos – disparando seu centro do prazer. Três destes padrões – busca sucessiva de recompensas, triunfo sobre adversidades, resolução de puzzles difíceis – produzem grandes cargas de dopamina do centro do prazer e são altamente viciantes, mas este vício é contrabalançado por alguns fatores, como: o tédio de tentar muitas vezes, frustração, irritação, aborrecimento.

 

Então podemos dizer que o centro do prazer é a razão porque você gosta de videogames, em termos biológicos pelo menos.

Mas claro que seu estilo de jogo, qual você prefere, depende de muitos outros fatores como os tipos de ambientes, estórias e arte que você gosta. Todo jogador é diferente – mas toda diversão funciona, num nível neurológico, disparando o centro do prazer do cérebro.

 


 Conclusões:

 

Bem, resumindo este artigo reforça o conceito de que nossos cérebros não diferenciam tanto jogos de tarefas reais. Para ele tudo não passa de desafios que irão gerar satisfação se forem vencidos. Seja aprender a dirigir, falar bem em público, conseguir um bom emprego, neurologicamente é muito parecido com derrotar um boss difícil, executar com maestria os golpes em um jogo de luta, coordenar perfeitamente os pulos em plataformas, coordenar as mãos em jogos musicais, etc.

 

O cérebro descobre o padrão que deve ser vencido, processa ele através do treino e quando atingir a vitória nos dá recompensas através de neurotransmissores que nos deixam felizes e satisfeitos. E claro, viciados.

Afinal o cérebro quer que a gente repita o procedimento para ter mais satisfação, para seguir vencendo cada vez mais desafios, para dominar o mundo com a inteligência e astúcia da espécie humana. Sabemos que nem sempre isso dá certo, mas ele tenta.

 

Por isso os jogos podem ser uma ótima ferramenta de ensino. Afinal por que é tão fácil e divertido aprender algo em um bom jogo? Porque é muito mais rápido processar o desafio, tentar várias vezes e ver o resultado na hora, melhorando a cada tentativa, em um universo digital interativo do que na vida real. Essa experimentação imediata que o jogo permite, sem conseqüências drásticas como resultado, estimula muito o aprendizado.

Claro que não substitui outras formas de ensino, mas complementa. Deveriam ser usados cada vez mais jogos nas escolas (desenvolvidos para esse fim, mas com qualidade), para ensinar diversas matérias. Talvez isso poderia ajudar um pouco a criar indivíduos viciados no saber, no desafio saudável, na busca do conhecimento, não pela obrigação, mas por satisfação própria.

 

Mas retornando ao universo dos jogos e a relação com a neurociência, todo esse papo científico nos ajuda e entender porque alguns jogos são tão extraordinários.

Por exemplo Shadow of the Colossus; são raras as pessoas que não adoraram este jogo. Afinal ele é uma chuva de endorfina, com belos gráficos, exigindo exploração do cenário, gerando grande admiração ao encontrar as criaturas gigantes, a satisfação de descobrir como derrotá-las (puzzle), além da habilidade para executar isso e a curiosidade pela história [com um final surpreendente]). Seja você um explorador, amante de puzzle ou ação, apreciador de gráficos, … tem um pouco para todo mundo.

 

Shadow Of The Colossus - endorfina para todo lado!
Shadow Of The Colossus – endorfina para todo lado!

Enfim, por isso gamedesign é tão complexo e fascinante: envolve psicologia, antropologia, neurociência, arte, programação,… É uma grande salada de coisas interessantes.

 


Parabéns por ter chegado no fim! Eis o seu achievement:


achievement-blog
Eis a sua conquista merecida! Está sentindo a satisfação gerada pela enforfina pingando na sua cabeça? Se esboçou um sorriso no canto da boca, é isso !🙂

Para quem ainda tiver fôlego, confira este artigo sobre a importância de jogar, traduzido em outro blog. É um bom complemento de tudo que falamos aqui.