Na minha época de criança e adolescente, existiam alguns arcades ou “fliperamas” pela cidade. O pessoal ia regularmente para jogar clássicos como Street Fighter 2 (depois Champion Edition), Pit Fighter, Samurai Shodown, Sunset Riders, Metal Slug, Golden Axe, Knights of The Round, Dungeons and Dragons, Double Dragon, Shadow Dancer, Final Fight… A gente jogava pelo prazer do jogo, para treinar, pelo desafio, para desafiar o colega, criar estratégias, enfim tudo que um bom jogo faz: te obriga a pensar. Seja dominar as possibilidades do jogo ou dominar a coordenação necessária para executar um golpe (o primeiro Hadouken a gente nunca esquece🙂); o que constitui um jogo são exercícios de superação baseados em habilidade, seja manual ou intelectual (ou ambas).

Bons tempos!

Por mais que freqüentar um arcade não fosse saudável como praticar um esporte, não era um entretenimento completamente inútil, afinal estávamos tentando superar desafios pela persistência, éramos seres ativos e pensantes enfrentando as adversidades em busca do sucesso. Todas estas habilidades são muito importantes para a vida, aprender a não ter medo de desafios e ir atrás dos seus objetivos através de muito trabalho.

Bons tempos! (2x)
Bons tempos! (2x)

 

Bem, hoje em dia o que restou dos nossos arcades por ai perdeu este espírito. Talvez eu esteja generalizando por causa de um mal exemplo, mas o que vi no Shopping Total de Porto Alegre me deixou muito decepcionado. A algum tempo atrás eu estava nesse shooping por outro motivo, mas resolvi dar uma olhada no arcade que fica ao lado do cinema. Lá tinha uns brinquedos físicos para crianças, como piscina de bolinhas, túneis para se caminhar, além de alguns jogos virtuais muito antigos. Até ai tudo bem, sem problemas. Porém o que me chocou foi a quantidade de máquinas baseadas em moedas. Existiam vários tipos, onde o “jogador” coloca uma moeda e ela cai batendo em pinos até entrar em uma abertura na base da máquina, marcada com um valor ou crédito. Então de acordo com este valor a máquina vai imprimindo uma espécie de fita, algo como tickets que podem ser trocados por prêmios. Existe outra máquina que tem várias moedas acumuladas quase desmoronando numa abertura e conforme a pessoa coloca novas moedas fica torcendo para que tudo desabe e possa pegar o “bolo” acumulado.

Enfim, todas estas máquinas são baseadas na sorte e visam o lucro, seja tickets que valem prêmios simples, ou moedas que podem alimentar outras máquinas, fechando o ciclo vicioso. Resumindo, vi muitas crianças e adultos, perdendo todo seu tempo colocando fichas e mais fichas nessas máquinas, uma atrás da outra, para pegar fitas gigantes de tickets, podendo trocar por algum brinde inútil. Ou seja, estão treinando nossas crianças a usar caça-níqueis! Eu vi lá adultos colocando fichas compulsivamente, enquanto fumavam, uma visão deprimente, igual as pessoas que perdem suas vidas e todo seu dinheiro nos caça-níqueis de botecos.

Não é necessário estudar muito gamedesign para saber que o uso da sorte em um jogo exclui a habilidade. Pode ser bom ter um pouco dos dois, mas um jogo 100% baseado na sorte transforma o “jogador” em um robô que insere fichas. O jogo não te premia pela tua excelência em fazer algo, ele te premia por uma probabilidade, por você perder seu tempo em fazer um ato mecânico e sem sentido.

Maus tempos...
“Maus” tempos…

Não seria mais saudável se alguém quiser ter um bicho de pelúcia que simplesmente compre ele? Ou ganhe em algum jogo que envolva habilidade (seja tiro ao alvo ou Tekken), mas não em perder uma tarde da sua vida colocando fichas na abertura de uma máquina. Neste arcade também tinha alguns jogos de habilidade que davam tickets, como arremessar uma bola de basquete rapidamente na cesta. Porém nesse caso o que vi foi outra cena surreal, os adultos jogavam (pois a cesta é próxima, afinal o jogo é feito para crianças) e os seus filhos só ficavam olhando. Depois de fazer isso por muito tempo poderiam pegar um brinde para dar à criança. Mas ai eu pergunto, que diversão é essa? Jogar compulsivamente algo em busca do capitalismo de receber algum prêmio de volta. Ninguém estava ali se divertindo, todos estavam tensos preocupados em ganhar mais tickets. O que uma criança aprende em uma tarde num arcade desses? Nó máximo recebe um brinde sem sentido ou mérito algum, além de ter uma aula de que tudo que se faz deve ser direcionado ao ganho, ao lucro, ao capitalismo acima de tudo. A criança ou fica colocando moedas em máquinas ou fica assistindo seu pai arremessar bolas em uma cesta a meio metro dele, sempre de olho na quantidade de tickets que sai da máquina.

Isso é triste, alimenta uma nova geração de pessoas que só visam o lucro, não usam seus cérebros para nada, perdem sua vida em um comportamento de vício que não trás nenhum benefício.

 

Agora o “sistema” que dita o que deve ser ouvido, comprado, vestido, também corrompeu o arcade, tirando a diversão e o aprendizado de vencer desafios que os jogos devem proporcionar.  

Acredito que para formarmos indivíduos que questionam o mundo a sua volta, que sabem que o objetivo da vida não é só o dinheiro, devemos desde cedo incentivar as crianças a terem comportamentos saudáveis, visando não só o raciocínio próprio mas também a solidariedade. Por isso as crianças devem passar longe destes “arcades” corrompidos.

 

Não sei quanto aos outros centros de lazer em shoppings da cidade, mas o que vi no Shopping Total naquele dia foi deprimente. Claro, não podemos generalizar, tinha gente jogando jogos de verdade, como alguns simuladores de esqui e outros de luta mais antigos, porém a grande maioria do pessoal estava nessa compulsão doentia de moedas e tickets. Lastimável…